Leonardo Sakamoto

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Opinião

PF, enfim, vai atrás dos generais pela tentativa de golpe de Bolsonaro

Após um ano de operações que atingiram, principalmente, a horda que vandalizou as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, além de pequenos e médios financiadores, a Polícia Federal realiza, nesta quinta (8), operação contra a cúpula bolsonarista para apurar a existência de uma organizacão criminosa que tentou dar um golpe de Estado. E, com 60 anos de atraso, atinge vários militares que passaram pela cúpula das Forças Armadas.

Entre os alvos fardados dos 33 mandados de busca e apreensão, quatro mandados de prisão e 48 medidas cautelares, frutos da delação do ex-faz-tudo Mauro Cid, estão o general Augusto Heleno, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o general Braga Netto, ex-ministro-chefe da Casa Civil e candidato a vice na chapa de Jair à reeleição, o general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, o general Estevam Cals Theophilo Gaspar Oliveira, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres, o almirante Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha, e o general Mario Fernandes, que foi o número 2 da Secretaria-Geral da Presidência.

E, claro, o próprio Jair Messias Bolsonaro, capitão reformado do Exército e que seria o principal beneficiário do golpismo. A PF exigiu a entrega do passaporte em até 24 horas.

O ex-assessor presidencial Filipe Martins já foi preso nesta manhã, bem como o coronel Marcelo Costa Câmara, ex-ajudante de ordens de Jair. Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, e Tércio Arnaud Tomaz, ex-assessor de Bolsonaro e membro do chamado "Gabinete do Ódio" também estão na lista de mandados de busca.

Segundo a PF, a organização atuou, de um lado, para difundir mentiras sobre fraudes nas eleições e, do outro, para produzir atos para subsidiar um golpe de Estado, inclusive com militares com conhecimento de táticas de guerra híbrida.

Esses alvos da Polícia Federal também estavam no relatório final da senadora Eliziane Gama (PSD-MA) na CPI dos Atos Golpistas, aprovado em outubro do ano passado, como Bolsonaro, Braga Netto, Anderson Torres, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Almir Garnier, Filipe Martins, Costa Câmara e Tércio Arnaud.

O texto pediu o indiciamento de 61 pessoas, entre civis e militares, pelo mesmo motivo que guia a operação desta quinta: tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Da operação à punição dos que tiverem a culpa comprovada, vai um longo caminho. Mas é salutar que tanto a cúpula do golpismo comece a sentir um suadouro quanto os militares que atropelaram a Constituição também sejam, publicamente investigados.

Isso explica o desespero de uma parte da extrema direita para articular uma anistia no Congresso Nacional. Não era altruísmo, mas autopreservação.

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Apesar dos esforços do atual comandante do Exército, general Tomás Ribeiro Paiva, e do naco democrata da cúpula das três forças, para que os militares tenham um comportamento republicano e constitucional, são muitas as vivandeiras cúmplices da tentativa de golpe.

Nos seus quatro anos de governo, Jair fechou uma sociedade com os militares, oferecendo cargos, vantagens na Reforma da Previdência, licitações de produtos de luxo para o oficialato.

Sob o capitão, militares se beneficiaram de Viagra e próteses penianas, camarão e filé mignon e continuaram ganhando pensões especiais para filhas não casadas e acesso a hospitais especiais. Coronéis articularam bizarras reuniões em que se negociou com reverendos, servidores públicos e indicados de políticos, sobrepreço e propinas para a compra de doses de vacina contra a covid-19 enquanto pessoas morriam por falta de imunizante.

O então presidente cobrou, em troca, cumplicidade para dobrar a democracia à sua imagem e semelhança. A quebra do sigilo do celular do tenente-coronel Mauro Cid, ex-faz-tudo de Bolsonaro, mostrou mensagens de oficiais sugerindo formas de executar o golpe de Estado e minutas golpistas dando poderes ditatoriais às Forças Armadas. Sem contar a vergonha de militares transformando-se em camelôs de joias surrupiadas da União para benefício pessoal do então presidente.

Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas com a ajuda dos militares ao longo de anos. E, em, novembro do ano passado, os comandantes das três forças soltaram uma nota com uma falácia absurda, apontando que o fato de não terem encontrado problemas nas urnas não significava que eles não existiam.

Após o segundo turno, os comandantes das Forças Armadas deram uma passada de pano monumental nos movimentos golpistas que acampavam em torno de quartéis e trancavam rodovias. Defenderam, em nota pública, que os atos eram legítimos, ignorando que eles não estavam pedindo mais arroz e feijão, educação ou saúde, mas um golpe de Estado com participação e prisão do presidente eleito. Esses "atos legítimos" desaguaram na tentativa de golpe.

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Dezenas de acampamentos montados à frente de instalações militares em cidades de todo o Brasil após as urnas darem a vitória a Lula serviram para abastecer a mobilização golpista de 8 de janeiro.

E o acampamento golpista em frente ao QG do Exército também serviu de cabeça-de-ponte para o ataque à sede da Polícia Federal e a queima de carros e ônibus no dia 12 de dezembro e o planejamento da bomba colocada em um caminhão de combustível a fim de explodir o aeroporto de Brasília na véspera de Natal, além do próprio 8 de janeiro.

Para além da tramoia que levou ao 8 de janeiro, fardados continuaram agindo mesmo após a intentona. O Exército impediu a entrada da Polícia Militar no acampamento golpista em frente ao seu quartel-general, em Brasília, naquela noite. Imagens de dois blindados deslocados para mostrar que o comando falava sério chocaram muita gente que apostava que a ditadura militar havia terminado em 1985. Com isso, muitos bolsonaristas tiveram tempo de fugir.

Como explicar que a nossa força terrestre foi guarda-costas de golpistas? A quem a sua "mão amiga" e o seu "braço forte" estavam protegendo?

Como já disse aqui, nunca curamos as feridas deixadas por 21 anos de ditadura. Tapamos com um curativo mal feito, ao qual chamamos de transição lenta, gradual e segura.

Mas essas feridas continuam fedendo, apesar dos esforços estéticos. Não apenas pelo apoio e a anuência de membros das Forças Armadas à tentativa de golpe de 8 de janeiro, mas toda vez que o Estado mata - não como um infeliz efeito colateral da proteção da população ou de si mesmo, mas como execução de uma política de limpeza e contenção social.

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Este seria o momento de promover mudanças legislativas para garantir que militares fardados fiquem na caserna, deixando a política para civis, como tramita no Congresso Nacional. Mas não só: o ideal seria revisar a legislação para impedir a distorção da Constituição por extremistas que acreditam no tal poder moderador.

Se militares não foram presos pelo golpismo de 1964, que o sejam pelo de 2023.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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