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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O erro de Ciro Gomes ao reagir a agressões de bolsonaristas

Ciro Gomes reage com truculência a ofensas de militantes bolsonaristas em feira agro.  - Foto: Divulgação/PDT
Ciro Gomes reage com truculência a ofensas de militantes bolsonaristas em feira agro. Imagem: Foto: Divulgação/PDT
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

29/04/2022 12h23

O episódio em que o pré-candidato à Presidência pelo PDT, Ciro Gomes, é hostilizado por militantes bolsonaristas durante visita a uma feira de agronegócios em Ribeirão Preto (SP) é um retrato do ambiente violento em que se dará a disputa presidencial deste ano depois de três anos e meio de governo Bolsonaro.  

O ímpeto de defensores de Jair Bolsonaro (PL) em ofender, xingar e cometer atos preconceituosos é como uma extensão de seu próprio "mito". É o saldo de um governo que contamina o ambiente em que o presidente propaga, ele mesmo, insultos contra adversários ou pessoas que não pensam como ele, agora. 

A recente graça presidencial concedida ao deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) é um convite ao uso da violência por seus seguidores radicais: Silveira ameaçou autoridades, quebrou a placa em homenagem a uma mulher negra assassinada, parlamentar e referência para tantos, como era Marielle Franco, e desafiou os limites da democracia. Bolsonaro, ao defender-lo, ao se contrapor à Suprema Corte, ao ignorar a própria lei e o devido processo legal, legitima o uso da violência. 

Esse comportamento de bolsonaristas, portanto, era esperado — o que não significa que deva ser normalizado. 

Mas, se Ciro Gomes quer, de fato, se tornar uma terceira via, se pretende se diferenciar da maneira como se comporta o presidente Jair Bolsonaro, não pode reagir com virulência — algo que ele carrega dentro de si e que lhe é característico. Ciro sabe que essa característica não o ajuda. 

O eleitorado tem demonstrado que quer outro rumo. O brasileiro está extenuado de uma liderança truculenta. Aprendemos que o uso da violência pela maior autoridade do país aprofunda o racismo, o machismo, a xenofobia e o discurso de ódio, instrumento para propagar esses preconceitos e que tem como finalidade exterminar o que for diferente. 

Quando Ciro reage ofendendo uma mulher (no caso, a mãe do bolsonarista que o agrediu), ele afasta o eleitorado feminino. O candidato pedetista está em terceiro lugar nas pesquisas. Na pesquisa BTG/FSB, Ciro tem 9% das intenções de voto. Desses, 8% são votos de mulheres, parcela da população que corresponde à maioria dos eleitores.

Ciro poderia tentar disputar esse voto. Mas optou pela truculência. Quem é atraído por esse comportamento? Homens que não consideram o machismo um problema, que também se identificam com o uso da agressividade para enfrentar hostilidades, que, em situações adversas, não titubeiam em acuar mulheres publicamente. 

A juventude também não se identifica com esse perfil ultrapassado do "homem macho".

É um equívoco seguir por esse caminho, em especial no Brasil que viveu sob Bolsonaro, que aprofundou desigualdades, preconceitos, celebrou a tortura e desdenhou da morte.  

Precisamos que, pelo menos aqueles candidatos que não coadunam com a violência, se comprometam em estabelecer uma disputa mais responsável, mais cordial, sem expor a população a mais barbárie. Isso não significa de maneira alguma aceitar a violência, minimizar as agressões. É o equilíbrio entre não se submeter e reagir sem ofender que o país precisa.