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Maria Carolina Trevisan

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Levantamento mostra que PMs não confiam na segurança da urna eletrônica

Urna eletrônica  -  Marcelo Camargo/Agência Brasil
Urna eletrônica Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

06/04/2022 04h00

Uma sondagem realizada com 150 policiais militares de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Rio Grande do Sul, Ceará e Pernambuco, ao longo dos últimos quatro anos revelou que esses agentes de segurança pública não confiam na urna eletrônica. O levantamento foi feito pelo Instituto Ideia com os mesmos policiais e o UOL teve acesso aos dados com exclusividade.

A confiança na urna eletrônica vem diminuindo entre esses policiais desde que Jair Bolsonaro (PL) foi eleito presidente da República. Em junho de 2019, primeiro ano de seu governo, 35% dos entrevistados disseram que não confiam na urna eletrônica. No ano seguinte, em dezembro, essa taxa subiu para 48%, em maio de 2021 alcançou 55% e em abril de 2022 atingiu 57%. O aumento de 22 pontos percentuais nesse período é significativo e preocupante.

As constantes declarações contrárias à urna eletrônica por parte de autoridades bolsonaristas parece ter se refletido também no desejo de retomar o voto impresso, especialmente entre os PMs. Mais da metade dos entrevistados (55%) afirmou que gostaria de voltar ao voto em papel. Em outubro de 2018, apenas 35% desses policiais militares afirmaram preferir a cédula impressa.

Essa desconfiança com o processamento eletrônico do voto interfere também na confiabilidade sobre o processo eleitoral em si: enquanto que, em outubro de 2018, 35% dos policiais militares consultados disseram acreditar que houve fraude na eleição que tornou Dilma Rousseff (PT) presidente, quase quatro anos depois, em abril de 2022, 70% dos entrevistados concorda que a vitória de Dilma foi fraudada.

"Em uma disputa tão polarizada como neste ano, com chances de um dos candidatos vencer com uma pequena vantagem, a sensação de que o pleito poderia ser fraudado fragiliza a democracia e o processo eleitoral", afirma Maurício Moura, CEO do Instituto Ideia.

Confiança sobre o processo eleitoral na população em geral

A tendência se verifica também na população em geral, mas de maneira mais moderada. No primeiro ano do governo Bolsonaro, 24% dos 1.200 entrevistados disseram que não confiam na urna eletrônica. Esse índice subiu para 29% em 2020, alcançou o pico em maio de 2021, com 33%, e oscilou para 31% em abril de 2022. É um cenário crítico, considerando que mais de um quarto da população está descrente sobre o sistema eleitoral atual.

O aumento de 7 pontos percentuais desde o início da gestão Bolsonaro até hoje demonstra que há impacto real das sucessivas tentativas de desacreditar a segurança do processo eleitoral por parte do atual presidente na população em geral. Esse efeito parece ser ainda maior entre os policiais militares consultados.

Mas ao contrário dos policiais militares entrevistados, 71% da população em geral ainda prefere votar via urna eletrônica. Em 2018, eram 85% os que preferiam a urna eletrônica.

Diferente dos PMs consultados, a maioria da população brasileira não acredita que houve fraude nas eleições de 2014, em que Dilma foi eleita presidente, apesar de a sensação de fraude ter mais que dobrado desde o início da sondagem, em 2018, indo de 11% para 28% que acham que houve fraude.

É importante ressaltar que as opiniões desses 150 policiais militares não refletem o posicionamento das corporações ou do alto comando das PMs dos estados consultados. Indicam, no entanto, que é importante ter atenção sobre as contínuas insinuações de autoridades bolsonaristas de que as urnas eletrônicas são fraudáveis, para não fragilizar ainda mais o processo eleitoral.