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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

União Brasil muda jogo da terceira via e obriga Moro a reduzir a ambição

Anúncio do União Brasil sobre candidatura de Luciano Bivar à Presidência obriga Moro a diminuir ambição                              - EDUARDO MATYSIAK / AFP
Anúncio do União Brasil sobre candidatura de Luciano Bivar à Presidência obriga Moro a diminuir ambição Imagem: EDUARDO MATYSIAK / AFP
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

13/04/2022 09h49

Ao anunciar Luciano Bivar como pré-candidato do União Brasil à Presidência da República, bancada do partido sepulta possibilidade de Sergio Moro disputar o cargo. Um comunicado oficial da sigla deve ser feito nesta quinta (14).

A declaração pegou Moro durante viagem ao Rio Grande do Sul, em que participa de eventos. Até agora, o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro tem se colocado em palestras e discursos como candidato ao Palácio do Planalto. Mas Moro está desgastado.

Seu desempenho ruim nas pesquisas, a saída repentina do Podemos — em que deixou um rastro de ressentimentos e dívidas — e a pregação a favor da antipolítica que desagrada colegas, enfraqueceram as possibilidades de que ele seja um nome viável para uma terceira via. Nos primeiros meses como possível candidato, Moro conseguiu apenas aumentar a sua rejeição. Usou a política para se promover mas atuou com práticas duvidosas, causando desconfiança.

O que se apresenta com mais força ao ex-juiz é a candidatura a deputado federal por São Paulo, oportunidade mais adequada ao seu tamanho político. É também uma jogada interessante para o União Brasil no xadrez eleitoral: Moro disputaria com nomes fortes como Guilherme Boulos (PSOL) e Eduardo Bolsonaro (PL) e atuaria como um puxador de votos para a nova sigla, fusão entre o DEM e o PSL, que encolheu com a janela partidária.

São as voltas que a política dá. As eleições majoritárias ainda são muito maiores do que a envergadura atual do ex-juiz. Encolhido a seu tamanho, uma boa atuação de Moro na Câmara, caso seja eleito, faria com que ele saísse maior do que entrou.

Pessoalmente, a disputa a deputado federal também pode ser melhor opção. A política é o que resta ao ex-juiz, que abriu mão da carreira na Justiça ao assumir o ministério de Bolsonaro e perdeu credibilidade diante das reações negativas sobre sua atuação na Lava Jato. Perdeu tudo, mas pode sair vencedor. Isso se Moro demonstrar alguma habilidade entre os deputados, caso seja eleito.

O foro privilegiado lhe interessa. A concorrência com Boulos e Eduardo pode lhe render votos valiosos para reposicionar sua relevância — que na competição pela Presidência é mínima. "Ele está em uma situação política muito complicada, de quem cometeu erros políticos", disse o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (União-MS) ao UOL News, nesta segunda (11). O próprio Mandetta, que tinha pretensões de se candidatar ao Senado, talvez tenha que rever sua estatura e voltar a pleitear uma vaga na Câmara dos Deputados.

Há um ano, Mandetta e Moro se expressavam como potenciais nomes à Presidência, seriam respostas do campo "nem Lula, nem Bolsonaro". Hoje, ambos precisaram reduzir expectativas para tentar uma entrada no tabuleiro mais apropriada à realidade e menos ao ego. É esse mesmo dilema que se impõe aos candidatos de hoje da terceira via, como Simone Tebet (MDB), Eduardo Leite (PSDB) e João Doria (PSDB): a chegada de Luciano Bivar à disputa pressiona a decisão por uma candidatura única e uma possível coligação com o União Brasil, que pode ser inevitável.

Quanto mais o calendário eleitoral se estabelece, mais a realidade se coloca. Ganha quem for mais hábil.