PUBLICIDADE
Topo

Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fracasso de militares no governo Bolsonaro frustra suas ambições políticas

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno - Valter Campanato/Ag. Brasil
O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno Imagem: Valter Campanato/Ag. Brasil
Conteúdo exclusivo para assinantes
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

19/04/2022 13h34

Há três anos, no começo do governo de Jair Bolsonaro (PL), um grupo de militares de alta patente assumiu cargos no primeiro escalão da gestão federal. A estratégia era mostrar, na prática, como a competência, a disciplina e o conhecimento adquiridos nas Forças Armadas poderiam ser interessantes ao Brasil, uma boa maneira de fortalecer a imagem do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Passados três anos, a presença do núcleo duro de ministros militares na cúpula do governo se mostrou um fiasco. Todos, em diferentes momentos, manifestaram ambição eleitoral que pode não se confirmar depois de suas trajetórias no atual governo.

O primeiro a assumir um cargo no governo de Jair Bolsonaro foi o general Augusto Heleno, que chefia o GSI (Gabinete de Segurança Institucional), órgão responsável por zelar pela estabilidade institucional, pela segurança pessoal do presidente da República e por prevenir crises. Mas já em junho de 2020, Heleno não foi capaz de prever os fogos de artifício contra o prédio do STF (Supremo Tribunal Federal) — ou, se soube antes da ameaça, deixou rolar. O ataque contra o Supremo foi uma violência contra a democracia e anunciava outras ameaças que vieram depois.

Heleno é o mesmo que cantou publicamente "se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão" e que depois teve de engolir representantes do centrão como ministros, atuando no mesmo andar do Palácio do Planalto em que ele despacha. Também foi o general Augusto Heleno quem autorizou o garimpo em áreas de preservação ambiental da Amazônia, minimizou as queimadas na floresta, pediu sigilo de 100 anos sobre a carteira de vacinação do presidente da República e tentou impedir acesso aos dados da reunião de pastores no MEC (Ministério da Educação), com fortes indícios de corrupção.

Mais recentemente, em março, não conseguiu antecipar que haveria um incêndio na garagem da Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial do GSI, que comanda. O fogo causou "perdas materiais" na frota presidencial. A Presidência da República abriu um procedimento administrativo.

O saldo de Heleno à frente do Gabinete de Segurança Institucional tem como destaques o fogo no centrão, o fogo no Supremo, o fogo na Amazônia e o fogo na garagem do Palácio do Planalto. Ficou no governo mas queria ser o vice na chapa com Bolsonaro.

Também ficou no governo o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, general Luiz Eduardo Ramos, que preferiu manter o salário que o cargo lhe garante. Recentemente, foi chamado de "nefasto" pelo ex-ministro da Educação de Bolsonaro, Abram Weintraub, que o culpou pelo início da perda da "alma conservadora" do governo. Ramos é um fervoroso cabo eleitoral de Bolsonaro, a quem diz ser leal. "Hoje, os que me agridem mostram suas verdadeiras faces", publicou em seu Twitter.

O cargo de vice almejado por Heleno está sendo negociado por outro ministro general, o Braga Netto (ex-ministro da Defesa), que ainda precisa do aval do centrão e dos evangélicos nessa escolha como vice de Bolsonaro à Presidência. Sua capacidade como gestor do "gabinete de crise" da pandemia não ajudou a salvar vidas mas funcionou para colocar em prática o plano bolsonarista de negar a gravidade do coronavírus, culpar governadores pela crise econômica decorrente do isolamento social, blindar Bolsonaro de dar explicações, acabando com as coletivas de imprensa, e eximir o governo de responsabilidade.

Mas Braga Netto está implicado no repasse do que ficou conhecido como "orçamento secreto", com trocas de promessas e recursos, que ele nega existir. "A Defesa só organiza aquilo ali, recebe os pedidos. São os parlamentares. A Defesa só executa", disse, e acrescentou que a responsabilidade, nesses casos, seria do Congresso. Também precisa justificar a compra de milhares de comprimidos de Viagra e de toneladas de picanha, de filé mignon e de salmão com dinheiro público, quando 19 milhões de pessoas não têm o que comer no Brasil.

O obediente ex-ministro da Saúde general Eduardo Pazuello tem em sua passagem pelo governo Bolsonaro a atuação com consequências imediatas mais graves entre todos os generais ministros. Sua gestão foi responsável por atrasar o envio de oxigênio a Manaus no ápice da pandemia — e ele estava ciente de que o estoque acabaria —, também operou para atrapalhar a compra de vacinas, que viriam no "dia D e hora H", defendeu o uso de cloroquina, criando um aplicativo para recomendar o "kit covid", comprovadamente ineficaz, e desdenhou da dor e do sofrimento de milhares de brasileiros com a perda de vidas na crise da covid-19. "Pra que essa ansiedade, essa angústia?", indagou.

Era tido como um "expert" em logística, justamente o que faltou para fazer chegar os cilindros de oxigênio a Manaus em tempo para salvar vidas da asfixia. Agora, precisa desesperadamente de um cargo que garanta o foro privilegiado e o salve dos processos que enfrenta.

O atual vice-presidente, general Mourão, também busca uma candidatura para chamar de sua. Quer concorrer ao Senado pelo Rio Grande do Sul. Mas não sem disputa: o estado tem apenas uma vaga. Mourão divide o bolsonarismo, porque chega a se opor a Jair. Mas não esconde sua truculência.

Nesta terça (19), dia do Exército, chamou o golpe de 1964, que marca o início da ditadura militar (1964-1985), de "Revolução Democrática de 1964", na semana em que foram revelados áudios sobre as torturas implementadas por militares nesse período, em que admitem o uso de marteladas e provocar abortos.