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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Homens sustentam competitividade de Bolsonaro, presidente que os privilegia

12.jun.2021 - Jair Bolsonaro durante passeio de moto em São Paulo - ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
12.jun.2021 - Jair Bolsonaro durante passeio de moto em São Paulo Imagem: ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

06/04/2022 12h06

A cada semana, a disputa pela Presidência ganha mais a cara de um segundo turno. Na corrida polarizada entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o eleitor indeciso tende a antecipar o voto estratégico e a descartar os outros candidatos, na medida em que eles deixam de ser competitivos.

A pesquisa Ipespe publicada nesta quarta (6) revela que no recorte de gênero a maioria dos eleitores de Bolsonaro é composta por homens (36%). O apego masculino ao atual presidente vem crescendo desde o início do ano, quando esse perfil representava 29% dos eleitores bolsonaristas. Entre as mulheres, ele tem a intenção de voto de 24%, no cenário estimulado.

Em uma sociedade patriarcal como a brasileira, é lógico que um presidente que privilegia homens — sobretudo os homens brancos — ganhe os votos desse grupo populacional. Jair, quando aparece em público, está sempre rodeado por eles. Nesses encontros, frequentemente o chamam de "mito", como se ele fosse um homem superior a ser venerado e nunca questionado.

Seu elenco ministerial é majoritariamente masculino. Até no dia da mulher, ao se reunir no Palácio do Planalto com pastores evangélicos, elas eram minoria, mal falaram.

A ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) é sua grande porta-voz, fiel escudeira. Está na linha de frente do bolsonarismo radical. É ela quem impõe a ideologia sobre os direitos das mulheres. Suas políticas são voltadas a capacitar mulheres empreendedoras, quando se sabe que a necessidade das mulheres brasileiras é conseguir uma renda mínima que possa garantir dignidade no cuidado dos filhos, acesso à educação, à saúde sexual e reprodutiva, ao absorvente gratuito e que tenha instrumentos para enfrentar a violência de gênero, que só escala.

Bolsonaro não esconde seu machismo. Ofende jornalistas mulheres, faz piada sexual sobre a vida íntima com a primeira-dama, Michelle, e disse que nascer mulher só pode ser fruto de uma "fraquejada" do homem, mesmo quando se refere à própria sua filha.

O presidente gosta de agradar outros homens. Sai em comboio de motocicleta — como se ela fosse um símbolo de masculinidade — ao lado de outros homens que se sentem igualmente poderosos em suas motocas potentes. Na campanha de 2018, mostrava a sua força viril com flexões. Agora, se esforça com outro ícone do "homem valente": está empenhado em ampliar o armamento. O que poderia ser mais simbólico do macho do que a arma de fogo?

Na verdade, falta coragem e competência para lidar com os desafios reais do país. As mutretas no Ministério da Educação, a bagunça na liderança da Petrobras, a violência policial nas favelas contra a população negra, para isso tudo, é melhor fechar os olhos.

Os mais pobres, as mulheres, os moradores da região Nordeste, que sofrem diretamente com a alta da inflação e do desemprego apostam mais em Lula como presidente, mostra a pesquisa. Esses problemas exigem medidas complexas que o governo Bolsonaro não foi capaz de enxergar ou planejar.

O perfil de eleitores bolsonaristas se completa com a renda de mais de cinco salários mínimos (35%), moradores da região Sul (39%), com 55 anos ou mais (34%) e que estudaram até o Ensino Médio (33%). Esse é seu público fiel.

Quem sustenta a competitividade de Bolsonaro, neste momento, é o voto masculino.