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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Adolescentes se sentem invisíveis e apartados do processo eleitoral em 2022

Adolescentes não se sentem representados, têm medo de expor opinião e não sabem com quem dialogar - (Foto: Ilustrativa)
Adolescentes não se sentem representados, têm medo de expor opinião e não sabem com quem dialogar Imagem: (Foto: Ilustrativa)
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

05/04/2022 10h43

Os adolescentes estão afastados do processo eleitoral este ano. Há um conjunto de problemas que culminou nesse quadro. O mergulho no isolamento provocado pela pandemia potencializou esse distanciamento. "Há um forte sentimento de abandono causado pela invisibilidade dos anos de pandemia", afirma a socióloga Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Os adolescentes de 16 e 17 anos sentem que ninguém se interessa por eles."

Esther e pesquisadores da Unifesp realizaram recentemente uma pesquisa qualitativa com jovens de todo o Brasil, de diversos perfis sociais e de renda e diferentes posicionamentos políticos. Os sinais são muito preocupantes. O denominador comum mostra que eles estão muito desiludidos.

Apenas 17,32% dos adolescentes de 16 e 17 anos tiraram o título de eleitor, segundo dados Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até março. É o menor engajamento dessa população desde 2004. Em uma disputa tão polarizada como a deste ano, o contingente de votos jovens pode definir a eleição. Mais de cinco milhões de adolescentes ainda não têm o documento. O prazo termina em 4 de maio e pode ser feito por meio digital.  

A pesquisa mostrou que esses jovens rechaçam a ditadura e defendem o voto e a democracia, mas estão emocionalmente desvinculados do processo eleitoral. "É uma defesa desapaixonada, fria, que tem mais a ver com a liberdade individual do que com a participação coletiva", diz a socióloga. Essa apatia pode ser fruto da compreensão de que os políticos, os partidos e também as instituições atuam para o interesse próprio, daí a corrosão da crença na política.

Além desse aspecto, os adolescentes enxergam a ordem institucional como muito envelhecida, não se sentem representados, as formas de comunicação são extremamente distantes das pautas de interesse dos jovens e dos meios como se comunicam, o que coloca um abismo entre gerações. 

A precarização da educação na pandemia foi outro problema grave encontrado na pesquisa. "É uma falta estrutural", aponta Esther. Um cuidado maior por parte do Estado em manter os alunos do ensino médio interessados no ambiente escolar poderia ter diminuído essa brecha enorme na trajetória dos adolescentes brasileiros, em especial, daqueles em situação mais vulnerável. 

Mas há um aspecto encontrado na investigação conduzida pela socióloga que é muito preocupante: os professores estão se autosilenciando quando se trata de política. "Existe um medo geral. Medo de processo, medo da reação de pais de alunos", explica Esther. São os frutos colhidos por anos do movimento de extrema direita "escola sem partido", que causou um policiamento da sala de aula promovido pelo bolsonarismo.

A escola seria o melhor espaço para a discussão política, já que nas famílias falar de política gera brigas, discussões, confusões, relataram os jovens. Então, como não podem falar de política na escola e não se sentem à vontade para conversar sobre o tema em casa, procuram as redes sociais. Ali encontram um novo problema: o receio de serem cancelados. 

Para se sentirem mais protegidos, buscam o posicionamento do influencer, consomem mais a opinião e menos o fato, a notícia. No entanto, estão conscientes da desinformação, procuram a informação correta, mas não se expõem. Tudo isso, em conjunto, afasta os adolescentes do processo político. 

A quem interessa calar os professores e afastar os adolescentes das urnas? Aos defensores do presidente Jair Bolsonaro (PL). A pesquisa Datafolha de março mostrou que Lula (PT) tem a preferência entre os mais jovens, com 51% dos que têm entre 16 e 24 anos. Bolsonaro tem apenas 22% dessas intenções de voto.     

Algumas iniciativas têm funcionado para atrair esse público. A participação do ex-presidente Lula no podcast Podpah foi lembrada como um momento de aproximação do pré-candidato petista aos adolescentes. Posicionamentos da cantora Anitta e dos ex-BBBs Juliete e Gil do Vigor em que incentivam a obtenção do título de eleitor também foram efetivos. A Editora Contracorrente anunciou, nesta terça (5), desconto de 50% para os adolescentes que apresentarem o título na compra de qualquer obra, entre elas, o livro "Luto", do jornalista Jamil Chade.

São ações importantes, mas não são suficientes para garantir a adesão dos adolescentes às eleições de 2022. Para a socióloga Esther Solano, falta uma grande campanha institucional, com perfil adequado de comunicação com os jovens, via meios de interesse dessa população, para que eles se sintam acolhidos. No momento atual, pós pandemia, os adolescentes estão se sentindo abandonados e invisíveis. Isso é muito grave.