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Mauricio Stycer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bial descreve Moro como o herói que virou vilão e que ainda pode se redimir

Pedro Bial entrevista Sergio Moro no "Conversa com Bial" - Reprodução
Pedro Bial entrevista Sergio Moro no "Conversa com Bial" Imagem: Reprodução
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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

17/11/2021 12h22Atualizada em 17/11/2021 16h11

Numa entrevista em que Sergio Moro chamou a atenção pelos lugares comuns e pelas respostas vagas e vazias, Pedro Bial acabou se destacando mais que o entrevistado na madrugada desta quarta-feira (17). Cordial, ora chamando Moro de "doutor", ora de "você", o apresentador propôs um fio narrativo capaz não apenas de explicar a trajetória do ex-juiz e ex-ministro, como também de apontar uma solução para o seu futuro próximo.

Na visão de Bial, Moro já encarnou o papel de herói, depois o de vilão e agora tem a grande chance de se redimir. O apresentador expôs a sua tese na abertura do programa:

Hoje a nossa conversa é com um homem público que provoca tantas paixões, a favor e contra, que suscita a pergunta: dá para ser herói e vilão da mesma história? A mitologia diz que sim. O semideus Hercules, antes de ser herói, assassinou a esposa e os filhos num surto. O mega híper bláster vilão Darth Vader ganhou redenção de herói ao matar seu chefe, imperador Palpatine, para salvar Luke Skywalker. Nesses casos, foi o herói que virou vilão ou o vilão que virou herói?

Em seguida, o apresentador aplicou o raciocínio à trajetória de Moro. Lembrou que o seu entrevistado foi herói no papel de juiz e vilão na posição de ministro. E agora, caso assuma o papel de presidenciável, poderá viver a redenção. Bial citou o nome da operação Lava-Jato, mas não o de Jair Bolsonaro nem o da chamada "Vaza-Jato". Disse ele:

"O convidado que nos honra com a sua presença hoje primeiro foi avatar do desejo de justiça dos brasileiros. Como juiz da mais bem-sucedida operação de combate à corrupção na história do país, a Lava-Jato, ele foi ungido como herói nacional. Depois, o jogo virou e, num lance cinematográfico, ele passou a ser visto também como vilão. Fez um movimento arriscado: emprestou a imagem, até então pouquíssimo contestada, a um projeto político personalista que prometia mudar a forma de governar o país. Virou o avalista moral de um presidente nem tanto. Seu nome ficou identificado com uma administração negacionista. Uma série de vazamentos de mensagens puseram seus feitos em xeque. De herói ganhou tintas de vilão tanto à esquerda quanto à direita. Poderia ter sido o fim da linha, mas não foi. Na última quarta-feira, 565 dias depois de deixar o governo, ele voltou à cena, agora presidenciável."

Moro agradeceu o texto de abertura, mas sugeriu não ter entendido claramente a metáfora: "Gostei da introdução. Todo mundo gosta de um bom filme. Não sei se concordo com a caracterização de vilão. E nunca tive um problema como a loucura de Hércules. A minha esposa até esteve no seu programa e ela está bem vivinha. Mas obrigado pelo convite".

Bial disse, então, que "esse mito do herói acompanha a humanidade em todas as culturas, em todas as expressões literárias, artísticas". E perguntou: "Mas, no caso do Brasil, qual seria o nosso maior problema: ficar apontando vilões ou procurando heróis salvadores da pátria?"

Moro respondeu citando o "sebastianismo", a crença lendária de que o rei português Sebastião (1554-1578), sumido numa batalha, voltaria para salvar Portugal de todos os seus problemas. E disse: "Isso foi incorporado à nossa cultura, sim." E acrescentou: "Nós precisamos de bons líderes, mas precisamos de instituições fortes. Líderes que construam instituições e instituições que incentivem o surgimento de grandes líderes".

Bial gostou: "Projetos de país, não apenas projetos de poder. Que foi algo presente no seu discurso, no grande evento de sua filiação ao partido Podemos". Foi, então, que Bial e Moro tiveram o diálogo involuntariamente cômico, que viralizou e será lembrado como o melhor desta entrevista:

Bial: No início, doutor Moro, você parecia tenso, e logo no segundo parágrafo do discurso resolveu falar de sua voz. Nós sabemos, dá pra perceber, que você está fazendo fono. Eu já fiz fono. Recomendo. Mas fiquei mexido, confesso. Quando você trabalha com a fono, você percebe que certas limitações da voz tem a ver com questões emocionais. Você tá fazendo fono por um processo de autoconhecimento, alguma coisa assim?

Moro: Bial, você que é um grande expert, um grande comunicador, até fico envaidecido. Você acha que minha voz melhorou mesmo?

Bial: Eu acho. Todo mundo tá comentando. Tá diferente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL