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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

ONG recua e diz que construiu campanha contra LGBTfobia "junto com o SBT"

Patrícia Abravanel no Programa Silvio Santos  - Reprodução / Internet
Patrícia Abravanel no Programa Silvio Santos Imagem: Reprodução / Internet
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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

12/01/2022 13h22Atualizada em 12/01/2022 17h14

O SBT está divulgando agora em janeiro, em meio à programação, um vídeo de 40 segundos que busca informar o espectador que a violência contra homossexuais é crime. O vídeo, assinado pelo "Comitê de Diversidade" do SBT, conta com a participação de Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, dos apresentadores Celso Portiolli e Eliana, além de funcionários da emissora.

A campanha critica a omissão diante da violência contra a população LGBTQIAP+, condena a propagação de discursos de ódio e o desrespeito aos direitos dos homossexuais. Por fim, pede engajamento ao público. "Precisamos nos unir, buscar transformação. E ela começa em cada um de nós. A família SBT quer evoluir junto com você. E aí? Você vem?"

Para entender o vídeo é preciso retroceder a junho de 2021, quando Patrícia, durante o programa "Vem Pra Cá", disse que os homossexuais precisam "compreender" quem não os respeita e que é difícil falar sobre diversidade com os filhos. Até Tiago Abravanel, sobrinho de Patrícia, criticou a fala na ocasião.

O comentário da filha de Silvio Santos, considerado homofóbico, gerou o pedido de uma ação administrativa na Secretaria de Justiça de São Paulo, com base na Lei 10.948/01. A iniciativa foi da Associação Brasileira de Mulheres Lésbicas, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Intersexos, presidida pela advogada Luanda Pires. A lei estadual estabelece punições contra "toda manifestação atentatória ou discriminatória praticada contra cidadão homossexual, bissexual ou transgênero".

Nesta terça-feira (11), em publicação no Instagram, a advogada Marina Ganzarolli, que faz parte da associação, festejou a divulgação da campanha da emissora. Ela afirmou que "o SBT, com a obrigatória participação de Patrícia, foi obrigado a reproduzir em sua programação, durante todo o mês de janeiro de 2022, campanha publicitária educativa contra a LGBTfobia".

A mensagem da advogada foi reproduzida por diferentes sites, enfatizando a informação de que o SBT foi obrigado a exibir a campanha. Ganzarolli, posteriormente, excluiu essa informação da mensagem em sua rede social.

Em mensagem enviada à coluna, o SBT nega que tenha sido condenado ou obrigado a exibir a campanha. Também diz não ser verdade que Patrícia foi obrigada a participar e afirma que o vídeo faz parte de uma programação do seu Comitê de Diversidade.

"Não existe condenação contra o SBT e nem à sua artista. Vale ressaltar que o SBT possui um calendário anual de ações afirmativas em diversidade, inclusão e pertencimento, através da Universidade Corporativa e da plataforma SBT do Bem, com o apoio de uma consultoria referência no mercado. Além disso, sempre teve o seu Comitê de Diversidade e Inclusão para tratar dessas temáticas, entre outras".

Procurada pela coluna, a advogada Luanda Pires confirmou que não houve condenação ao SBT. Mas disse que a divulgação da campanha na televisão foi resultado de um "acordo", assinado pelos advogados da emissora, de Patrícia Abravanel e pela associação que ela preside.

Pires afirmou ao UOL que o acordo, assinado no final de 2021 e mediado pela Secretaria de Justiça, é sigiloso e, por isso, não pode divulgar os compromissos assumidos pelo SBT. Na hipótese de descumprimento do acordo, o caso voltaria à esfera judicial.

O SBT nega que advogados de Patricia Abravanel tenham participado das conversas. E insiste que a campanha está sendo divulgada por iniciativa da emissora, e não por exigência de algum acordo.

Em nota divulgada no final da tarde, a Associação Brasileira de Mulheres Lésbicas, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Intersexos diz que sente "orgulho de ter feito parte da construção da peça publicitária" e afirma que "essa campanha não acontece por determinação ou condenação judicial contra a emissora ou qualquer pessoa envolvida".

"Construímos a campanha junto com o SBT, entendendo que seu interesse na conscientização da população sobre o combate a LGBTIfobia é genuíno e verdadeiro", diz a entidade.

Nesta disputa de "narrativa", com cada lado tentando impor uma versão dos fatos, a única coisa indiscutível é o vídeo, em si, que traz uma mensagem importante contra a homofobia.

Veja a campanha do SBT: