Topo

Coluna

Plínio Fraga


Onde Cabral escondia os diamantes comprados com propina

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB), condenado a mais 33 anos de prisão - FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO
O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB), condenado a mais 33 anos de prisão Imagem: FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia ?Tancredo Neves, o príncipe civil? (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propões a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

19/11/2019 04h00

Uma das mais espetaculares ações para transformar dinheiro da corrupção do governo Sérgio Cabral Filho no Rio de Janeiro (2007-2014) em diamantes desenvolveu-se em um cenário idílico suíço. Os detalhes e os endereços da operação, capítulo espetacular da cleptocracia nacional, aparecem na mais recente condenação judicial de Cabral _ sentenciado a mais 33 anos de prisão pelo juiz Marcelo Bretas por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Preso desde outubro de 2016, as penas de Cabral já somam 266 anos.

A esquina da praça de Chevelu com a rua Russeau, em Genebra, tem dois hotéis, uma cafeteria, uma loja de bijuterias e outra elegante loja de sapatos. Em meio a elas, uma discreta empresa de gestão de fortunas oferece cofres exclusivos à clientela privilegiada. A esquina fica a poucos metros do rio Ródano, o mais importante da Suíça. Se durante o dia, a vista é deslumbrante, à noite parece um quadro de Van Gogh. Especificamente, A noite estrelada sobre o Ródano, óleo sobre tela de 1888 exibido hoje no Musée d'Orsay, em Paris.

Operadores de financeiros de Cabral, os irmãos Renato e Marcelo Chebar, doleiros que selaram acordo de delação premiada, compraram o equivalente a 5,7 milhões de reais em diamantes em 18 de maio de 2016 e guardaram em cofre da esquina da praça Chevelu com a rua Russeau. Naquela semana, os jornais estampavam acusações de delatores de que Cabral, já ex-governador, exigira mesada de empreiteiras para fraudar licitações e contratos públicos. A operação com diamantes parecia uma maneira segura de colocar a salvo milhões de dólares mantidos clandestinamente em contas no exterior.

Quatro meses depois, em 13 de setembro de 2016, os irmãos Chebar compraram o equivalente a 4,5 milhões de reais em mais diamantes e colocaram na mesma seção de cofres. A operação seguia um método testado em novembro de 2011, quando os irmãos Chebar tinham adquirido quatro quilos e meio de ouro, pagando pouco mais de 1 milhão de reais. Daquela feita, alocaram o ouro em cofre situado na zona franca do aeroporto de Genebra. Em 12 anos (2003-2015), os irmãos Chebar confessaram ter remetido para o exterior quase R$ 360 milhões oriundos de propinas arrecadadas pelo esquema de Cabral.

Os diamantes foram confiscados pela Justiça suíça. A transferência das peças para o Brasil depende da superação de entraves burocráticos com os custos de transporte e contratação de seguro. O episódio dos diamantes de Cabral comprova a célebre frase de Marilyn Monroe: os homens passam, os diamantes ficam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.