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Plínio Fraga


Por que a tarifa gratuita dos ônibus já foi adotada por mais de 100 cidades

Manifestantes participam do quarto protesto do Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento na tarifa do transporte público em São Paulo - Isabela Naiara/Photopress/Estadão Conteúdo
Manifestantes participam do quarto protesto do Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento na tarifa do transporte público em São Paulo Imagem: Isabela Naiara/Photopress/Estadão Conteúdo
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

29/01/2020 12h26

Enfrentando inaceitável repressão por parte da Polícia Militar do Estado de São Paulo, o Movimento Passe Livre (MPL) retomou neste mês manifestações contra o reajuste de passagens de ônibus e do metrô, que passaram de R$ 4 para R$ 4,40.

Vistos como ingênuos, massa de manobra, utópicos ou simples arruaceiros, os integrantes do MPL defendem o que há de mais interessante em experiência de transportes urbanos pelo mundo. Mais de 100 cidades, em países como Estados Unidos, França e Polônia, já adotaram a tarifa zero no transporte público.

Worcester, a segunda maior cidade de Massachusetts, foi a mais recente a aderir à isenção de tarifas para seus ônibus, com custo perto de R$ 12 milhões por ano em bilhetes não cobrados. Lá cada trecho custa US$ 1,20 (R$ 5,05).

Como registrou o New York Times, os vereadores nada comunistas de Worcester chegaram à conclusão de que o transporte gratuito é uma necessidade, não um luxo. Esse argumento está no topo entre autoridades que estão buscando novas ideias para combater a desigualdade e reduzir as emissões de carbono. Alguns prefeitos têm considerado o transporte um bem público puro, assim como é o policiamento ou a conservação de ruas e estradas.

O NYT cita que Kansas City (no estado de Missouri) e Olympia (Washington) já anunciaram que os ônibus estão livres de tarifas pelo menos neste ano.

Lá como cá, a crítica principal está embutida na pergunta: quem vai pagar por isso?

Nos EUA, em muitas cidades o número de passageiros está caindo, e o volume de carros e de níveis de poluição, aumentando. Assim o custo da renúncia de tarifas pode ser menor do que o esperado e mais barato do que outras medidas antipoluentes.

Um punhado de experimentos nos Estados Unidos nas últimas décadas, incluindo cidades grandes como Denver e Austin, fracassou porque havia poucas evidências de que o passe livre de fato tivesse removido carros das pistas. Conforme a economia crescia, constatou-se, aumentava o número de pessoas que compravam seu primeiro carro.

Em outro sentido, o passe livre aumentou o número de passageiros dos ônibus imediatamente, com crescimento entre 20% e 60% de usuários nos primeiros meses. Essa estatística explica o ressurgimento da proposta entre urbanistas progressistas, que apontam o trânsito como um fator chave na desigualdade social e racial.

Na semana passada, enquanto a polícia de São Paulo impedia manifestações em favor do passe livre em São Paulo, centenas de moradores marcharam em Worcester. Expressavam, sem qualquer repressão policial, apoio à proposta de estender a experiência dos ônibus gratuitos da cidade por mais três anos.

Plínio Fraga