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Plínio Fraga


Bancada da bala manobra para enfraquecer Moro e controlar a Polícia Federal

Sergio Moro está na mira da bancada da bala - Reprodução/TV Cultura
Sergio Moro está na mira da bancada da bala Imagem: Reprodução/TV Cultura
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

24/01/2020 00h01

O desmembramento do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, aventado nesta quinta-feira pelo presidente Jair Bolsonaro, é um avanço dos aliados mais antigos do presidente _ a maioria integrante ou próxima da bancada da bala _ no controle do comando da Polícia Federal, além de óbvio enfraquecimento do ministro Sérgio Moro. A possibilidade de que o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF), o mais notório representante da bancada da bala, assuma como ministro da Segurança Pública garantiria à turma raiz do bolsonarismo maior controle sobre a PF _ para alívio do presidente.

Como líder inconteste da operação Lava Jato, Moro montou extensa rede de colaboradores na qual se sobressaem nomes da PF e da Receita Federal, além dos integrantes do Ministério Público. Em um ano no cargo, Moro demonstrou que pretendia trabalhar no ministério com aqueles que já têm folha de serviços prestados a ele _ o que não incluía nomes próximos à bancada da bala.

Exemplo claro foi a conduta de Moro quando Bolsonaro pressionou para a troca de comando na superintendência da PF no Rio de Janeiro, onde tramita inquérito que envolve o senador Flavio Bolsonaro, suspeito de lavagem de dinheiro. O presidente tentou emplacar o delegado Alexandre Saraiva, superintendente do Amazonas, na chefia do Rio. Numa estratégia lenta e paciente, Moro conseguiu demover Bolsonaro e fez valer o nome indicado para o cargo pelo diretor-geral da PF, Maurício Valeixo. Na segunda semana de dezembro passado, o delegado Carlos Henrique de Sousa assumiu como superintendente da PF do Rio, após seis meses de idas e vindas.

Setores próximos a Moro comemoraram o que seria a vitória da PF, prevalecendo sobre o desejo do presidente. A bancada da bala no Congresso, então, revidou. Criou a estratégia de propor a divisão do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, esvaziando Moro e ampliando as chances de um nome politicamente mais maleável a seus interesses _ e aos de Bolsonaro _ no cargo.

Longe da disputa política e da tentativa de proteger o senador Flávio Bolsonaro da investigação da PF, o desmembramento do Ministério da Justiça e da Segurança era visto com bons olhos por especialistas e entidades não governamentais engajadas no combate à violência. Tecnicamente a existência do Ministério da Segurança Pública, a quem caberia gerir o Sistema Único de Segurança Pública, facilitaria o objetivo prioritário de integração das polícias e dos sistemas de segurança do país sob coordenação do governo federal.

Sem a integração das autoridades de segurança e do compartilhamento de informações entre polícias e estados, fica difícil combater a violência. Criado em fevereiro de 2018 no governo Temer, o Ministério da Segurança Pública foi fundido com o Ministério da Justiça, desde o convite feito por Bolsonaro a Moro em outubro de 2018.

O que move os bolsonaristas, no entanto, não é a eficiência no combate à violência, mas sim a preservação dos seus em eventuais investigações da Polícia Federal, a exemplo da enfrentada pelo senador Flavio Bolsonaro para desgosto do presidente.

Plínio Fraga