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Plínio Fraga


Armadilhas e truques por trás de pesquisa eleitoral a 3 anos do pleito

Bombeiros são heróis das crianças e dos eleitores - Mauricio Bazilio / SES / divulgação
Bombeiros são heróis das crianças e dos eleitores Imagem: Mauricio Bazilio / SES / divulgação
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

23/01/2020 00h01

Pesquisas eleitorais a três anos do pleito têm valor limitado. Dependendo da forma como é montado o questionário do levantamento, o valor pode ser mínimo mesmo. É o caso da pesquisa eleitoral da MDA, patrocinada pela Confederação Nacional de Transportes e divulgada nesta quarta-feira.

Entre mais de 50 perguntas, o questionário dedicou somente uma ao quadro eleitoral de 2022: "Ainda faltam três anos para as eleições presidenciais de 2022. Mas, caso as eleições fossem hoje, em quem votaria?". A pergunta era aberta, sem apresentação de lista prévia de pré-candidatos.

Como era de se esperar, o número de eleitores que não responderam ou disseram não saber em quem votar (30,2%) somado aqueles que anunciam pretender votar em branco ou nulo (10,5%) forma uma sólida maioria (40,7%) de eleitores perdidos em relação à questão.

Dos entrevistados, 29,1% disseram espontaneamente pretender votar em Jair Bolsonaro, e 17%, em Lula. Outros oito nomes (Ciro Gomes, Sérgio Moro, Fernando Haddad, João Amoedo, Luciano Huck, Marina Silva Dilma Rousseff e João Dória) somaram juntos apenas 10,8%.

Se o levantamento tem alguma serventia, é o de mostrar que a três anos do pleito existem três blocos de eleitores. Os governistas somam um terço dos votos; os oposicionistas têm perto de um quinto dos votos. O terceiro bloco se dilui em busca de terceira via que vai de Ciro a Moro, passando por Huck e Doria.

A própria construção do questionário da pesquisa contamina o resultado. Por exemplo, a pergunta 29, a que antecede ao questionamento eleitoral, é a seguinte: "O sr. aprova o pagamento do 13º do Bolsa Família?" É claro que 76,2% dizem que sim. Tal lembrança é positiva para Bolsonaro e talvez possa ter catapultado os números do presidente.

De todo modo, Bolsonaro terminou o primeiro turno da eleição de 2018 com 46% dos votos. Está 17 pontos menor na comparação da pesquisa espontânea. Significa que já perdeu a reeleição? Claro que não, mas dá um indicativo de desgaste ante os eleitores. O mesmo se pode dizer de Lula. O último levantamento eleitoral de 2018 que incluiu seu nome dizia que 39% dos eleitores pretendiam votar no petista. Tem hoje menos da metade desse cabedal de votos.

Enfim, a conclusão mais segura é de que a cabeça do eleitor, a três anos do pleito, está tão vazia quanto a bola do Congresso Nacional e dos partidos políticos, identificados na pesquisa como os menos confiáveis pelos eleitores (0,3% e 0,2%, respectivamente). À frente de todos, despontam os bombeiros (29,1%) e as igrejas (25,8%) _ o que se permite concluir que o período atual está entre o incendiário e o Deus nos acuda.

Plínio Fraga