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Plínio Fraga


Contratados pelo governo, comunicadores estrelam "topa tudo por dinheiro"

O presidente Jair Bolsonaro na Record: conversa entre amigos - Reprodução / TV
O presidente Jair Bolsonaro na Record: conversa entre amigos Imagem: Reprodução / TV
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

28/01/2020 00h57

O governo Bolsonaro direciona gastos de propaganda para emissoras que considera aliadas como a Record, a Band e o SBT. Esses canais televisivos receberam 91% das verbas publicitárias de campanha propagandística em defesa da reforma da previdência, como demonstrou reportagem da Folha de S. Paulo. Como bônus, exibem conversas afáveis entre comunicadores e autoridades falsamente rotuladas como entrevistas

Desde a redemocratização, o direcionamento de verbas públicas da propaganda de governo tem sofrido maior ou menor influência política. Faltam parâmetros transparentes, impessoais e não partidários na destinação dos recursos.

O governo descarta a possibilidade de estabelecer equivalência entre o volume de verba e o percentual de audiência, por acreditar que beneficiaria a Globo. Tecnicamente deveria agir assim. É a forma mais distante possível do apadrinhamento político puro e simples.

O que mais espanta no escândalo da malversação das verbas de propaganda é o pagamento de "testemunhos" de comunicadores de televisão na defesa de pontos de vista governistas. Ratinho (SBT), Datena (Band), Ana Hickman (Record) e Luciana Gimenez (Rede TV) receberam dinheiro do governo para defender a reforma da previdência para suas audiências.

Cada qual ao seu modo, eles atuaram como se fossem participantes do "Topa Tudo por Dinheiro", aquele quadro em que Silvio Santos jogava aviõezinhos de notas de real para a plateia.

A reflexão que cabe aqui é se é legítimo e legal que o governo compre as palavras de comunicadores com extensa base popular sem que a audiência seja alertada disso. No quesito público, é um atentado contra a transparência, os valores republicanos e a noção de prestação de serviço embutida em concessões governamentais como os canais televisivos. No quesito de direitos do consumidor, o espectador é vítima de uma empulhação ao se fiar em opiniões de comunicadores que se venderam silenciosamente ao governo. Tudo por dinheiro

Plínio Fraga