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Plínio Fraga


Vanguarda do atraso eleva Porta dos Fundos à categoria de Godard

Duvivier (dir.) e Porchat: humor criativo sobre a primeira tentação de Cristo - Reprodução
Duvivier (dir.) e Porchat: humor criativo sobre a primeira tentação de Cristo Imagem: Reprodução
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

09/01/2020 00h01

O Brasil havia acabado de iniciar o processo de redemocratização. Passara por um choque com a morte de Tancredo Neves (1910-1985), que se elegera como fiador da passagem da ditadura para a democracia. O senador José Sarney, que de jaquetão e cabelos cor de braúna prometera ser um vice silencioso e discreto, tornara-se um presidente improvável em 1985.

No ano seguinte, o cineasta francês Jean-Luc Godard, estrela da nouvelle vague, fez sua interpretação dos evangelhos num filme alegórico, lento e de compreensão restrita: "Je vous Salue, Marie". A obra seguia à risca o manual godardiano de que filme deve ter princípio, meio e fim, mas não necessariamente nessa ordem. Se lançado comumente nos cinemas em 1986, "Eu te saúdo, Maria" não arrebataria mais do que algumas centenas de desgarrados, cinéfilos de espaços como o Belas Artes, em São Paulo, e o Estação Botafogo, no Rio de Janeiro.

Sem ver o filme e atendendo a lideranças católicas que também não o haviam assistido, Sarney decidiu proibir a exibição de "Je vous salue, Marie" nos cinemas nacionais. Atentava contra a religião e a família. Cenas de nudez e questionamentos de dogmas católicos tornaram o filme efervescente _ só no Brasil, único país do mundo que o censurou.

Fernando Lyra, espirituoso político pernambucano que ocupava o Ministério da Justiça era contrário à proibição do filme e mesmo assim assinou a portaria que o proibiu. Resumiu então a encrenca: "O problema do Brasil é a vanguarda do atraso".

A frase espetacular vem à tona com a decisão de um desembargador de mandar a Netflix retirar do ar um especial dos humoristas do grupo Porta dos Fundos sobre a "primeira tentação de Cristo". Peça de humor fino, bem conduzida e filmada, o especial de Natal foi crucificado por entidades conservadoras por sugerir flertes de Jesus com a homossexualidade.

O filme do Porta dos Fundos não é um Godard, cinematograficamente falando. Principalmente, porque todo mundo pode entender e sorrir com sua releitura criativa e engraçada. O que mais de francês a turma tem é a pronúncia dos sobrenomes do Gregorio Duvivier e do Fábio Porchat, que não vieram ao mundo para fazer frente a Myriam Roussel e Thierry Rhode, as estrelas de Godard.

É claro que a proibição será revogada, como sinalizou o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio de Mello, classificando-a como censura, o que contraria a liberdade de expressão, assegurada na Constituinte cidadã de 1988, dois anos depois da proibição de "Je Vous Salue, Marie".

O problema brasileiro é que a "vanguarda do atraso" _ por ser avant-garde _ está sempre na ponta de lança do que é mais antigo e obscuro. É a cruzada da tradição, da família e da propriedade, que produz trevas onde devia nascer a luz. A vanguarda do atraso não entende filme francês nem piada bem bolada.

Plínio Fraga