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Reinaldo Azevedo

Como a Lava Jato fez do doleiro e ex-bilionário Messer um novo milionário

Dario Messer: antes da delação, estava sem um tostão; depois dela, o ex-bilionário é um novo milionário - Reprodução
Dario Messer: antes da delação, estava sem um tostão; depois dela, o ex-bilionário é um novo milionário Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

13/08/2020 07h32Atualizada em 13/08/2020 16h44

Uma peça de ficção verdadeiramente cinematográfica — alô, José Padilha! — está em curso e, ora vejam, a prevalecer o entendimento de Edson Fachin, segundo quem forças-tarefa são entes autônomos, separados do Ministério Público Federal, a Lava Jato se eterniza por algumas décadas, mas seu eixo deixará de ser Curitiba e passará a ser o Rio de Janeiro.

A imprensa estampou títulos no que antigamente se chamava "letras garrafais". Eram variantes em torno desta suposta verdade: "Doleiro faz maior acordo de delação premiada da história". Ou ainda: "Lava Jato faz delação de R$ 1 bilhão". Na TV, um comentarista esbarrou nos chamados "mistérios gozosos" ao tratar do assunto. Cheguei a temer pelo decoro — refiro-me ao pessoal; o jornalístico já tinha ido havia algum tempo.

E quais são os supostos fatos conforme se anunciam?
- Dario Messer entregará aos cofres públicos R$ 1 bilhão;
- o dito doleiro dos doleiros terá uma pena de 18 anos e nove meses;
- é o maior acordo da história;
- filhos seus e ex-mulher já haviam fechado um outro de R$ 370 milhões.

O que já se sabe de efetivo sobre ele? Uma espécie de banco informal de Messer movimentou entre 2011 e 2017 US$ 1,6 bilhão. Ele seria ainda o controlador de um banco de verdade: o Evergreen (EVG), em Antígua e Barbuda. Operações legais e pilantragens se misturam.

Muito bem! Então vamos todos para a fila do gargarejo aplaudir os bravos procuradores da Lava Jato que só querem o bem da humanidade. Clap, clap, clap.

AGORA VAMOS AOS FATOS
A Lava Jato precisa mostrar serviço. E teria de ser alguma coisa realmente fabulosa, espetacular, a maior do mundo, deixando o país de queixo caído e evidenciando que, sem esses bravos vigilantes, o país afunda.

Sabem o título real, e não alternativo, para o que aconteceu nesta quarta? "Lava Jato quebra o galho de Messer e libera R$ 50 milhões a doleiro".

"Não entendi, Reinaldo!"

Eu explico. A delação de familiares de Messer já tinha sido feita. E as relações entre eles não são as melhores. Atenção! Todos os bens do doleiro, que está preso, estão bloqueados. Até esta quarta, ele não tinha como movimentar um miserável tostão.

Dado o que já se sabe de sua atuação, uma condenação sem delação nenhuma poderia simplesmente sequestrar todos esses bens. Mas aí notem: a Lava Jato precisava de um feito estrondoso, e Messer precisava de dinheiro. Como na música, um era a corda, o outro, a caçamba. Então veio o abracadabra.

Ele aceitou entregar ao Estado o que já está com o Estado — o tal R$ 1 bilhão — em troca da módica quantia de R$ 50 milhões. Isso mesmo: antes do acordo, Messer estava sem nada. Depois dele, deixou de ser um ex-bilionário para ser um novo milionário.

"Ah, mas há a condenação a mais de 19 anos..." Crime cometido sem violência, com a delação... Não vai cumprir nem um sexto em regime fechado. Está em prisão preventiva desde julho do ano passado, tempo que será abatido na pena. Logo mais estará em liberdade.

PODEM ESPERAR
Messer entregou uma lista de, atenção!, 400 clientes ao Ministério Público Federal. Como também fazia operações legais, vai saber como as coisas lá estão misturadas. Na prática, notem, pode-se dizer que ele vendeu essa lista por nada módicos R$ 50 milhões. E agora a Lava Jato do Rio fará dela o uso que lhe parecer melhor. Se depender de Fachin, a decisão será olímpica. Sem precisar prestar contas a ninguém.

Este blog apurou que tudo o que ele revelou foi na base do gogó, sem evidências factuais. "Ah, mas não precisa de provas para ter delação aceita, Reinaldo?" Ora, perguntem a Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro. Ele poderá dizer que não.

Há nessa lista, também apurou este blog, alguns verdadeiros potentados econômicos, inclusive fãs declarados, até agora ao menos, da Lava Jato. Talvez continuem se tudo ficar por baixo dos panos. Tudo o mais constante, nos próximos anos, a imprensa passará a ser pautada pela força-tarefa do Rio, e o país passará a ser governado pela narrativa que se decidir redigir por lá.

A homologação da delação de quem estava sem nada e agora está com R$ 50 milhões foi feita pelos juízes da 2ª e 7ª Varas Federais do Rio, cujos titulares são Alexandre Libonati e Marcelo Bretas.

Bretas é terrivelmente evangélico e candidato a uma vaga no STF.