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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Operação caça-Lula - O filme sobre a Vaza Jato e entranhas de fascistoides

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

13/06/2022 05h38

Estreia nos cinemas, no próximo dia 16, o documentário "Amigo Secreto", dirigido por Maria Augusta Ramos, que trata dos bastidores e revelações da chamada "Vaza Jato", a série de reportagens que evidenciou a parceria, ao arrepio da lei, de Sergio Moro com procuradores da Lava Jato. Diálogos que vieram a público entre Moro e Deltan Dallagnol e entre os procuradores da força-tarefa concorreram para a declaração de suspeição do então juiz.

Os processos contra Lula, como se sabe, foram anulados pelo STF porque Moro foi declarado o que era: incompetente para aqueles casos. Afinal, nada tinham a ver com 13ª Vara Federal de Curitiba. Em julgamento distinto, o agora ex-juiz também foi considerado suspeito. Convém, ademais, não esquecer: Moro condenou Lula sem provas na ação penal sobre o tríplex de Guarujá. Nunca ninguém aceitou o desafio de me dizer em quais páginas da sentença aparecem as evidências daquilo que Dallagnol e sua turma apresentaram na denúncia. Sigamos.

"Amigo Secreto", que tem pré-estreia nesta segunda, em São Paulo, traz um depoimento, como revelou reportagem da Folha, de Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht. Ele afirma ter sido praticamente coagido a acusar Lula. Era, entende-se, uma precondição para que a delação fosse aceita:

Reproduzo trecho da reportagem:
Segundo Alexandrino, apontado pela Lava Jato como elo entre o PT e a empreiteira, o ex-presidente era "o principal alvo" dos investigadores, que o pressionaram a chegar "ao limite da verdade" para envolver Lula em sua delação.

"Era uma pressão em cima da gente", diz o ex-executivo no longa-metragem. "E estava nítido que a questão era com o Lula."

Os interrogadores, diz ele, insistiam em questões sobre "o irmão do Lula, o filho do Lula, não sei o que do Lula, as palestras do Lula [a empreiteira contratou o ex-presidente mais de uma vez para falar em eventos]".

"Nós levávamos bola preta, 'ah, você não falou o suficiente'. Vai e volta, vai e volta. 'Senão [diziam os interrogadores], não aceitamos o teu acordo", segue o ex-empreiteiro em seu relato.

Outros empreiteiros detidos, afirma Alexandrino, mentiram para obter o acordo de delação premiada e, assim, reduzir as suas penas. Ele diz ainda que as múltiplas delações de diretores da Odebrecht representaram um trauma, mas que pouco havia a fazer a não ser aderir ao que tinha virado uma espécie de movimento coletivo.

O CASO LÉO PINHEIRO
Alexandrino, com efeito, parece não ter sido o único. Não sei se o caso Léo Pinheiro está no documentário, mas vale lembrar aqui. O ex-presidente da OAS fez dois acordos de delação premiada. Um primeiro foi anulado por Rodrigo Janot, então procurador-geral da República, sem explicação clara. Alegou-se descontentamento com vazamentos. Não se sabe o que continha, mas se sabe que ele não acusava Lula.

No dia 20 abril de 2017, no entanto, em depoimento a Moro, fora do ambiente de delação, Pinheiro falou o que a força-tarefa queria que falasse: disse que a reforma do tal tríplex seria um prêmio da empreiteira dado a Lula como fração de recursos desviados da Petrobras, que existiriam numa contabilidade informal. Não há um miserável documento que ateste isso.

E, acreditem, magicamente, as negociações para a segunda delação de Pinheiro recomeçaram dois meses depois. Em diálogos revelados pela Vaza Jato, até Dallagnol expressou a preocupação de que as coisas fossem vistas segundo aquilo que eram. Vale dizer: ele achava que o acordo de delação de Pinheiro seria entendido "como um prêmio pela condenação de Lula".

Nota adicional: a Alvarez & Marsal, que fazia a recuperação judicial da OAS, atestava que o apartamento pertencia à empreiteira, não a Lula. Moro ignorou a evidência. Mais tarde, como se sabe, foi trabalhar na... Alvarez & Marsal, que conduzia a recuperação também da Odebrecht. Que gigante!

Assim como a delação de Alencar, feita do modo como revela, foi importante para a condenação de Lula no processo do sítio de Atibaia, o depoimento de Pinheiro é central na condenação de Lula no do tríplex, embora, em embargos de declaração, Moro tenha afirmado que inexistia, de fato, relação entre o apartamento e os contratos da OAS com a Petrobras. Se inexistia, ele não era juiz da causa — o que foi finalmente reconhecido pelo STF — e condenado sem provas. Não obstante, Lula passou 580 dias na cadeia. E certa canalha insiste em apontar suposta benevolência da Justiça com ele.

O filme "Amigo Secreto" relata a rotina dos jornalistas Leandro Demori, do The Intercept Brasil, e Carla Jiménez, Regiane Oliveira e Marina Rossi, do El País Brasil, na chamada "Vaza Jato", a série de reportagens que expôs as entranhas da operação fascistoide que abduziu o país e o jogou neste lamaçal de impostura, vigarice e golpismo.