PUBLICIDADE
Topo

Rogério Gentile

Deputado diz que Eduardo Bolsonaro entregou dossiê antifascista para os EUA

Dep. Eduardo Bolsonaro durante Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional realizada na Câmara dos Deputados, em setembro de 2019 - Mateus Bonomi/AGIF
Dep. Eduardo Bolsonaro durante Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional realizada na Câmara dos Deputados, em setembro de 2019 Imagem: Mateus Bonomi/AGIF
Rogério Gentile

Rogério Gentile é jornalista formado pela PUC-SP. Durante 15 anos, ocupou cargos de comando na redação da Folha de S.Paulo, liderando coberturas como a dos ataques da facção criminosa PCC, dos protestos de 2013 e das eleições presidenciais de 2010 e 2014, entre outras. Editou a coluna Painel e o caderno Cotidiano e foi secretário de Redação, função em que era responsável pelas áreas de produção e edição do jornal. Atuou como repórter especial da Folha de 2017 a 2020 e atualmente é colunista.

Colunista do UOL

10/08/2020 15h35

Resumo da notícia

  • Lista com cerca de mil nomes foi divulgada em junho e atribuída ao deputado estadual
  • Justiça condenou Douglas Garcia (PTB-SP) a indenizar mulher citada como "antifascista"
  • No processo, consta que Garcia afirma que Eduardo levou dossiê à Embaixada dos EUA
  • Procurado pelo UOL, deputado federal não se manifestou até a conclusão da reportagem

O deputado estadual Douglas Garcia (PTB), um dos principais aliados da família Bolsonaro em São Paulo, disse à Justiça que Eduardo Bolsonaro entregou a cópia de um dossiê com militantes antifascistas para a Embaixada dos Estados Unidos.

Garcia foi condenado na semana passada a indenizar uma mulher que teve seu nome e dados particulares inseridos nessa listagem de pessoas que, de acordo com postagens feitas pelo próprio parlamentar, seriam "terroristas". O documento é diferente do relatório do Ministério da Justiça, revelado pelo UOL, que listou 579 servidores e professores a favor do antifascismo.

O dossiê, feito informalmente, não é resultado de investigação oficial. O deputado pedia nas suas redes sociais que denúncias fossem encaminhadas e as acrescentava na listagem, de acordo com informações do processo judicial.

O documento tem 56 laudas e dados pessoais, inclusive fotografias, de quase mil pessoas. O deputado negou à Justiça que tivesse participado da elaboração e da divulgação do dossiê, mas admitiu que o encaminhou para autoridades.

"Os grupos subversivos e violentos 'antifas' atuam em diversos países e, em todos eles, seguem o mesmo modus operandi, que consiste no uso de violência e outros crimes para intimidar, calar e eliminar fisicamente grupos ou indivíduos não alinhados à sua visão política", afirmou o deputado, à Justiça.

Em sua petição, ele disse que esse grupo tem feito convocações com o objetivo de "agredir" apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que, aos domingos, fazem manifestações "pacíficas e ordeiras" na avenida Paulista, em São Paulo. Na sua decisão, o juiz Guilherme Ferreira da Cruz, da 45ª Vara Cível Central da Capital, disse que o deputado não apresentou prova alguma de que as pessoas relacionadas no dossiê atuem com violência, pratiquem crimes ou terrorismo.

Garcia sistematizou dossiê, diz juiz; Eduardo não se manifesta

O juiz afirmou também não haver dúvida de que Garcia catalisou e sistematizou o dossiê, com base em postagens feitas pelo próprio deputado na internet. "A elaboração de dossiês não se relaciona com o exercício normal e regular do mandato legislativo, cujo titular deve se mostrar à sociedade prudente e equilibrado", disse.

O juiz cita ainda que, em tom de deboche, o deputado estadual afirmou que as pessoas relacionadas seriam impedidas de visitar a Disneylândia, referindo-se ao fato de que a listagem foi encaminhada para a embaixada americana. Garcia afirmou no processo que "o protocolo junto à Embaixada dos Estados Unidos foi feito pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro".

Em tese, os Estados Unidos podem, com base no dossiê, impedir a entrada das pessoas citadas ali, negando o visto ou mesmo revogando-o, se assim acharem que é o caso. Trata-se de um poder discricionário.
Garcia foi condenado a pagar R$ 20 mil, mas cabe recurso à decisão.

Procurado pelo UOL, Eduardo Bolsonaro não respondeu aos questionamentos enviados para o seu email.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.