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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Do STF ao templo: Culto pós-posse de Mendonça evidencia risco à democracia

16.dez.2021 - Culto evangélico em Brasília em celebração à posse de André Mendonça no STF - Reprodução/Catedral Baleia
16.dez.2021 - Culto evangélico em Brasília em celebração à posse de André Mendonça no STF Imagem: Reprodução/Catedral Baleia
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Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Coluista do UOL

18/12/2021 04h00

Não é uma questão menor o fato de André Mendonça celebrar sua posse no STF (Supremo Tribunal Federal) com um culto. Tudo neste evento é absolutamente simbólico e cheio de mensagens poderosas para a sociedade brasileira, para a democracia brasileira, para a oposição ao governo e, principalmente, para aqueles e aqueles que estão na linha de frente da luta por uma agenda política progressista.

Se pregou sobre autonomia, independência e não privilegiar seu grupo religioso, Mendonça já expôs o seu primeiro ato de contradição: "celebrar" sua posse na mais importante Corte do país com evento religioso imponente, midiático e extremamente politico.

A comemoração de uma posse é legítima para qualquer cidadão que conquiste uma posição duramente concorrida. Mas o culto de celebração de Mendonça está longe de ser apenas isso. A escolha desse lugar não é apenas uma demonstração de força e de poder, mas de lealdade a um campo.

Não há qualquer registro, de nenhum ocupante de cadeira no STF hoje, que tenha feito uma "comemoração" com esse perfil. As razões para isso são óbvias: esse tipo de evento comunica preferências, expressa vínculo de gratidão a um determinado grupo (essas pessoas não são a sua família) e compromete publicamente a imparcialidade do magistrado.

Grande parte das principais questões polêmicas ou de grande debate público no país são afetadas pela postura (seja de ataque, condenação, seja de adesão ou propositiva) do campo evangélico ultraconservador e suas grandes lideranças.

Que garantia Mendonça pode dar de independência e justiça, se todo esse campo ultraconservador celebra com ele e por ele é reverenciado?

Sendo ele pastor de uma pequena igreja presbiteriana em Brasília, o culto de agradecimento de Mendonça foi organizado não em sua "casa", mas na "Catedral Baleia", sede em Brasília da Assembleia de Deus Ministério Madureira, da família Ferreira, que tem no bispo Manoel Ferreira o seu patriarca.

Com seus filhos, Samuel e Abner Ferreira, Manoel forma uma das mais poderosas famílias do mundo evangélico brasileiro. Candidatos ao Executivo e Legislativo fazem questão de "pedir a bênção" à Assembleia de Deus nos anos eleitorais.

Basta pensar na celebração de Samuel Ferreira, em 2013, no templo da família, e as autoridades presentes no grande culto —Michel Temer (MDB), então vice-presidente da República; Geraldo Alckmin (sem partido), então governador de São Paulo; o deputado federal Alexandre Padilha (PT), então ministro da Saúde; o ex-governador e senador licenciado José Serra (PSDB-RJ), a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede), o deputado federal Arlindo Chinaglia (PT-SP), entre outros.

Vindo do campo evangélico reformado, ligado à Anajure (Associação Nacional de Juristas Evangélicos), que costuma agir de maneira mais sutil e discreta na influência e ocupação dos espaços de poder no governo Bolsonaro, Mendonça sabe que sem a força, a pressão e o pesado jogo das lideranças ultraconservadora pentecostais e neopentecostais, ele dificilmente teria virado o jogo na queda de braço com o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) contra o seu nome.

O culto no templo Madureira é um pedido de "bênção", é uma metáfora de assinatura de lealdade e compromisso. Em entrevista à revista Veja, o pastor Silas Malafaia já disse que os evangélicos (na verdade, o grupo de Malafaia) vão cobrar Mendonça e que considera normal "cobrar alguma coisa que tem a ver com ideologia que está em jogo".

Obviamente, tudo o que se pode dizer da atuação de André Mendonça no STF por agora será mera especulação até que ele comece efetivamente a despachar e a declarar votos. Mas a democracia brasileira não merecia esse tiro no escuro. Alguém tão comprometido com um dos lados das principais disputas sobre liberdade e diversidade na esfera pública deve sim levantar desconfiança.