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Saraiva afirma que Ramagem, da Abin, "o convidou" para chefiar PF do Rio

O delegado Alexandre Silva Saraiva, superintendente da PF no Amazonas - Divulgação/ADPF
O delegado Alexandre Silva Saraiva, superintendente da PF no Amazonas Imagem: Divulgação/ADPF
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

13/05/2020 19h32

Resumo da notícia

  • Superintendente da PF no Amazonas revela convite atípico de Ramagem
  • Chefe da Abin não tem atribuição de convidar ou nomear chefes estaduais da PF
  • Antes da Abin, em 2018, Ramagem fez a segurança de Jair Bolsonaro nas eleições

O delegado da Polícia Federal (PF) Alexandre Saraiva revelou nesta quarta-feira (13), em depoimento à PF no inquérito do STF que investiga as denúncias do ex-ministro Sergio Moro sobre suposta interferência política no comando da polícia, que no ano passado ele foi procurado pelo seu colega, o delegado Alexandre Ramagem, que o convidou para se tornar o novo superintendente da PF no Rio.

O telefonema indica uma tentativa de interferência nos poderes da direção-geral da PF, então exercida pelo delegado Maurício Valeixo.

Ramagem, responsável em 2018 pela segurança do então candidato à Presidência Jair Bolsonaro, não integrava a cúpula da PF e não tinha o papel de escolher superintendentes nos estados.

Segundo Saraiva, o telefonema de Ramagem com o convite para o novo cargo ocorreu "no início do segundo semestre de 2019".

Em julho do mesmo ano, Ramagem tomou posse na direção da Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Saraiva acabou não tomando posse no cargo de superintendente do Rio, mas em agosto Bolsonaro desencadeou uma turbulência política que culminou no pedido de demissão do então superintendente, Ricardo Saadi.

"No início do segundo semestre de 2019, [Saraiva] recebeu uma ligação do dr. Ramagem, perguntando ao depoente se ele aceitaria assumir a superintendência da Polícia Federal no RJ, ao que o depoente prontamente aceitou", diz o depoimento de Saraiva.

O delegado, então superintendente da PF no Amazonas, disse que Ramagem lhe disse que "o presidente da República Jair Bolsonaro tinha alguns nomes para sugerir ao ex-ministro Sérgio Moro para ocupar a função". Saraiva disse que "evidentemente aceitaria o convite, considerando que é natural do Estado do Rio de Janeiro e que teria aceitado sair do Rio para ir para Roraima, sendo uma consequência natural retornar ao seu Estado de origem após nove anos trabalhando na Amazônia Legal".

Tempos depois da conversa, continuou Saraiva, ele se encontrou com o então ministro Moro no aeroporto de Manaus (AM)."Saraiva, que história é essa de você no Rio de Janeiro?", teria indagado Moro. Saraiva contou sobre o telefonema recebido de Ramagem e fez "a mesma ressalva relacionada ao acerto prévio com o diretor-geral da PF como condição para assumir a SR-RJ".

Saraiva considerou que Moro lhe fez uma "deferência" ao falar sobre o suposto futuro cargo, uma "atitude correta e digna em relação à sua pessoa". O delegado, porém, disse que se sentiu "isolado pela administração do dr. Valeixo". A nomeação na superintendência acabou não ocorrendo e o então chefe no Rio, Ricardo Saadi, foi substituído pelo delegado Carlos Sousa.

Saraiva disse que é "amigo de Ramagem, tendo trabalhado juntos em Roraima", onde foi "superior hierárquico" do atual diretor da Abin.

O delegado também afirmou que chegou a ser sondado para ocupar o Ministério do Meio Ambiente no governo Bolsonaro. Depois, que teria sido convidado por Moro para ocupar a presidência da Funai (Fundação Nacional do Índio). Em nenhum dos casos, contido, Saraiva acabou nomeado.

O delegado afirmou que essas "sondagens", incluindo a de 2019 para a PF no Rio, "não se revestiam de nenhuma missão ou intenção pontual e específica de interesse das referidas autoridades, pois se assim fosse o depoente prontamente rechaçaria".

Rubens Valente