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Pressão de invasores pode explicar movimentação de índios isolados em RO

O indigenista da Funai Rieli Franciscato, defensor de índios isolados morto em 09.09.2020 - Reprodução/Redes sociais
O indigenista da Funai Rieli Franciscato, defensor de índios isolados morto em 09.09.2020 Imagem: Reprodução/Redes sociais
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

10/09/2020 18h49

Ainda sob o impacto da morte do indigenista Rieli Franciscato, 56, flechado nesta quarta-feira (9) em Seringueiras (RO), a Funai (Fundação Nacional do Índio) e indigenistas tentam entender o motivo pelo qual os indígenas conhecidos como "isolados do Cautário" apareceram na zona rural do município duas vezes neste ano, em 19 de junho e ontem.

Rieli, um dos mais importantes indigenistas em atividade na Funai e defensor dos índios isolados, sofreu uma flechada no peito no momento em que verificava, nos limites da terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau, a informação de que os isolados haviam reaparecido num sítio. Seu corpo é velado e deverá ser enterrado hoje em Alta Floresta d'Oeste (RO), onde vive sua família.

Um servidor público da região, que pediu para não ter o nome publicado, disse que a equipe de Rieli trabalhava com duas hipóteses para o aparecimento dos índios em junho: a busca por ferramentas como facões e picaretas ou uma pressão interna, dentro da terra indígena, exercida por invasores mas cuja origem exata a Funai ainda não conseguiu identificar.

Invasões de madeireiros e garimpeiros têm aumentado na terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Porém, segundo esses servidores da Funai, o processo tem sido mais intenso ao norte, e não ao sul, onde vivem os "isolados do Cautário". O nome é uma referência a um rio da região.

A Funai acredita que há três grandes famílias dos isolados no sul da terra indígena. Estima que possam ser de 150 a 350 isolados. Segundo os vestígios encontrados pela Funai, eles dormem em redes que eles mesmos tecem, se alimentam de caça, pesca e mel, têm o cabelo cortado em forma de cuia e andam seminus.

No sul do território, segundo os servidores, não há grande registro de roubo de madeira, mas sim da ação de caçadores clandestinos e garimpeiros. Ainda que em número pequeno, esses invasores são um foco de pressão sobre os isolados e podem ter levado às últimas movimentações dos indígenas.

Política do não contato

Após o primeiro avistamento, em junho, Rieli e sua equipe fizeram expedições na mata. Há mais de dez anos Rieli monitora o grupo de isolados, seguindo a chamada política de não contato, em vigor na Funai desde meados dos anos 80. Por esse princípio, os índios devem ser deixados em paz e o contato só se realiza se a iniciativa parte dos índios ou se a Funai detecta uma ameaça concreta e iminente para a sobrevivência dos indígenas.

Com as expedições, o objetivo da Funai e de Rieli não era contatar os índios, mas sim mapear possíveis ameaças e levantar explicações para o aparecimento dos índios no município de Seringueiras. Não houve uma conclusão sobre o motivo.

Em junho, a expedição da Funai viu que uma árvore fora derrubada pelos índios com uma picareta que eles haviam obtido dias antes num sítio na zona rural de Seringueiras. Por isso, Rieli deixou dois machados em trilhas a fim de entender se era isso que os índios precisavam (a ideia era indicar que eles não precisavam regressar à cidade para obter ferramentas; durante a pandemia do novo coronavírus, a contaminação pode dizimar o grupo). Um dos machados, porém, permaneceu intocado - o outro ainda não se sabe. Rieli planejava retornar ao local nos próximos dias para saber o que aconteceu com a segunda ferramenta.

"É uma incógnita ainda por que eles apareceram. Para a gente da Funai, para o Rieli, que era o nosso mentor e mais experiente, depois de junho esses índios iriam embora, não iam mais aparecer. Não fazia sentido eles voltarem, mas voltaram. O que o Rieli achou é que eles estavam com alguma necessidade de ferramenta. A gente também acredita, mas não tem como dizer com precisão, que esses índios estão sendo pressionados. Está acontecendo alguma coisa lá dentro e que a gente ainda não sabe o que é. Pode ser algo grave que ocorreu e que a gente ainda não conseguiu perceber", disse o servidor.

Segundo os indigenistas, a flechada foi ainda mais surpreendente porque não há nenhum histórico de conflito físico, pelo menos nos últimos 30 anos, que envolvam os "isolados do Cautário". Não há registro de nenhum ataque dos isolados contra um não indígena. A flechada foi interpretada como um sinal de "não ultrapasse", já que os índios obviamente não sabiam se Rieli era "amigo" ou "inimigo".

'Os isolados estão fugindo de medo'

Para a indígena Camila Puruborá, os isolados estão sendo pressionados por invasores dentro do território. A etnia puruborá tem uma aldeia a cerca de 40 km da região onde vivem os isolados.

"Os isolados estão fugindo de medo de dentro dos seus territórios. Há registro de muita queimada dentro dos territórios", disse Camila, que lamentou a morte de Rieli. "Era um aliado, um defensor dos povos indígenas."

Camila disse que as invasões estão escapando do registro da Funai porque costumam ocorrer justamente quando não há fiscalização na região. "Está ocorrendo a invasão de garimpeiros dentro da terra indígena. Os garimpeiros ficam de olho na entrada e saída de carros da Funai. Quando percebem que não estão, eles entram. A frente da Funai nem sempre está presente e nem sempre dá conta de cuidar desse território", disse Camila.

'Cordão de proteção'

Além de tentar identificar o motivo da movimentação dos isolados, a Funai passou a atuar na região de Seringueiras para novamente - já havia feito isso em junho - conscientizar a população a não confrontar os índios isolados se eles voltarem a aparecer. A orientação é que, no caso de um encontro, as pessoas saiam de perto dos índios, se escondam e acionem a polícia, que alertará a Funai.

Há um vídeo circulando na internet de um morador berrando contra os índios quando eles apareceram na quarta-feira. Servidores da Funai dizem que isso não pode voltar a ocorrer e que o gesto hostil pode ter influído no estado de espírito dos indígenas e culminado na flechada, horas mais tarde.

A ideia é criar um "cordão de proteção" nos limites da terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau a fim de explicar à população que a flechada foi um ato de autodefesa e que não há motivo para pânico. Servidores da Funai alertaram para a necessidade de o Estado se fazer presente na região, rapidamente, em poucas horas, com muitas pessoas e carros, para mostrar aos moradores que qualquer ataque aos indígenas não será tolerado.

"Tem que ser uma presença grande, para acalmar os moradores e dizer que estamos ali, atentos. A pior coisa que pode acontecer é um morador sair dando tiros porque viu um índio se aproximando", disse um servidor experiente da fundação. Rieli estava desde junho atuando mais intensamente na região também para fazer esse trabalho de conscientização.

Nesta quinta-feira (10), três servidores foram deslocados de Brasília para Seringueiras (RO) e outros funcionários no interior do país serão transferidos. Há expectativa de que a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), vinculada ao Ministério da Saúde, faça uma barreira sanitária e percorra os sítios da região para saber a situação da pandemia do novo coronavírus na região.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.