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Rubens Valente

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

PF investiga vídeo de bolsonarista contra indígenas acampados em Brasília

Indígenas em protesto há duas semanas contra a tese jurídica do "marco temporal" - Rubens Valente / UOL
Indígenas em protesto há duas semanas contra a tese jurídica do "marco temporal" Imagem: Rubens Valente / UOL
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

06/09/2021 17h45

A Polícia Federal abriu um inquérito neste sábado (4) para investigar um vídeo pelo qual um bolsonarista diz que vai "ter derramar [sic] de sangue" em Brasília, em relação aos indígenas que estão acampados em Brasília à espera da retomada, nesta quarta-feira (8), do julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a tese jurídica do "marco temporal". O homem diz ainda "vamo pra cima" e que "o povo tá numa sede".

A PF acolheu uma solicitação da 6ª Câmara do Ministério Público Federal, vinculada à PGR (Procuradoria Geral da República).

A investigação vai tratar do possível crime de ameaça, previsto no artigo 147 do Código Penal. Diz que é crime "ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave". A pena prevista é de detenção de um a seis meses ou multa.

Além do inquérito, que tramita na Superintendência no Distrito Federal, a PF também notificou a Funai (Fundação Nacional do Índio) e a Secretaria de Segurança Pública do DF para que a segurança em torno do acampamento dos indígenas seja reforçada.

O autor do vídeo, que circula desde sábado (4), está sendo identificado nas redes sociais como o bolsonarista Jackson Vilar, que atua no setor de móveis em São Paulo e já foi candidato a deputado federal em 2018 pelo PROS. Conforme uma reportagem publicada em junho pela BBC News Brasil, Vilar foi a pessoa por trás da organização da motociata realizada em junho de 2021 em São Paulo com o presidente Jair Bolsonaro.

No vídeo que circula nas redes, o homem diz o seguinte: "Adiaram pro dia 8 [o julgamento do marco temporal]. Ou seja, vai ter derramar [sic] de sangue em Brasília, hein. O pau vai cantar em Brasília. E é isso aí. Vamo pra cima. Vamo se acovardar, não. Não mexa com a gente, não, porque se mexer com um da direita, aí você vai ver. Então o povo tá numa sede, hein. O povo da direita - tenho falado com uns líderes aí - os caras tão aceso. Tá igual uma pólvora, se riscar um pavio... Se um índio desse se meter a besta, o [sic] Brasília vai desindianizar [gargalhada]".

Em outros vídeos divulgados na internet, Vilar aparece atacando integrantes do Centrão, o próprio grupo político que apoia Bolsonaro no Congresso Nacional, e diz que vai "salvar o presidente". Num vídeo de março de 2021, ele diz que ajudou a organizar uma manifestação em Brasília naquele mês. "Nós vamos pedir pro Bolsonaro - eu não sei se ele vai entrar com intervenção militar, civil, intervenção federal, eu não quero saber o que Bolsonaro vai fazer - estamos indo numa missão de salvar a nação brasileira."

A coluna tentou localizar Vilar, sem sucesso. Caso ele se manifeste, este texto será atualizado. Há três horas, na sua página no Facebook, Vilar escreveu que foi intimado pela PF de Brasília. Ele colocou uma foto ao lado do ministro do STF Alexandre de Moraes e disse que está "à disposição do senhor e do país". O inquérito, contudo, não tramita no STF, e sim na PF do DF.

No domingo (5), Vilar na mesma página postou um vídeo com "esclarecimento" sobre um suposto "mau [sic] entendido" no vídeo. Ele disse que "não falou que era ir para Brasília derramar sangue de indígena, não. [...] Meus princípios é outro, rapaz. Eu até alertei no final, por que não coloca o final do vídeo? Falei 'não entra nessa pilha, não'. [...] Eu alertei porque está todo mundo nervoso, os ânimos estão nervoso." Ele disse que "pode haver derramamento de sangue", mas que "não é para ter, é para todo mundo segurar seus ânimos".