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Rubens Valente

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Documento indica que governo sabia da taxa do desmate desde antes da COP

O ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, durante audiência pública em Brasília - Marcelo Camargo - 4.dez.19/Agência Brasil
O ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, durante audiência pública em Brasília Imagem: Marcelo Camargo - 4.dez.19/Agência Brasil
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

18/11/2021 19h34Atualizada em 18/11/2021 20h41

Divulgada nesta quinta-feira (18), a taxa anual do desmatamento na Amazônia Legal é um desastre para o meio ambiente e para a imagem do governo de Jair Bolsonaro, pois indicou um aumento de 22% em relação à taxa do período anterior (2019-2020), que já representava um acréscimo de 9,5% em relação ao período 2018-2019.

A data da nota oficial produzida pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre o assunto revela que o governo já sabia do número desde antes do início da COP26, a conferência dos líderes sobre a emergência climática, realizada neste ano em Glasgow, na Escócia, de 31 de outubro a 12 de novembro.

O documento do Inpe é datado de 27 de outubro último, portanto quatro dias antes do início da reunião (veja abaixo o fac-símile da parte final do documento; a íntegra pode ser vista aqui). Normalmente o governo brasileiro divulga o dado do desmatamento antes do início das COPs, num gesto de transparência. O documento técnico produzido pelo Inpe é enviado tradicionalmente ao MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações), hoje ocupado por um militar da reserva da Aeronáutica, Marcos Pontes. O Inpe está vinculado à pasta.

Data da nota oficial do INPE revela que o governo Bolsonaro já sabia da taxa anual do desmatamento na Amazônia desde antes do início da COP26, em Glasgow - Reprodução - Reprodução
Data da nota oficial do INPE revela que o governo Bolsonaro já sabia da taxa anual do desmatamento na Amazônia desde antes do início da COP26, em Glasgow
Imagem: Reprodução

Nesta quarta-feira (17), a coluna indagou ao Inpe, ao MCTI e ao MMA (Ministério do Meio Ambiente) sobre a taxa, mas não houve resposta até o fechamento deste texto. Na quarta-feira pela manhã, o sindicato dos servidores do Inpe, o SindCT (Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial), denunciou, em carta aberta, que era "pura mentira" que o relatório anual do desmatamento ainda não tivesse sido aprontado pelo Inpe.

Os servidores revelaram ainda que o documento com a taxa havia sido encaminhado ao diretor do Inpe, que o repassou ao MCTI.

João Paulo Capobianco, que foi coordenador do Plano de Prevenção e Controle ao Desmatamento da Amazônia (2003-2008) e é membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, disse por nota nesta quinta-feira (18) que a divulgação "é um duplo escândalo".

"O primeiro é o fato de que a nota divulgada pelo Inpe é do dia 27 de outubro, ou seja, anterior à Conferência do Clima. Trata-se da primeira vez em que o Prodes [Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite] não foi divulgado antes ou durante a COP. O governo federal foi a Glasgow já ciente da taxa de desmatamento, mas, ainda assim, não a informou para as Nações Unidas. Preferiu falar sobre outra métrica, o Deter, que apontava uma leve redução no desmate."

O segundo "fator chocante", segundo Capobianco, "é o aumento em si do desmatamento, que ocorreu apesar de anos de investimento maciço na presença das Forças Armadas na Amazônia".

"Só comprova aquilo que era sabido por todos que acompanham a pauta ambiental: desmate se combate com planejamento e intervenções em áreas definidas de forma estratégica e não pelo mero deslocamento de milhares de soldados, sem planejamento interno, para uma área de dimensões continentais. Se não houver uma mudança radical na abordagem, este avanço do desmatamento pode se tornar exponencial."

A coluna procurou na noite desta quinta-feira as assessorias do MCTI e do Inpe para que os órgãos expliquem o motivo pelo qual a taxa de desmatamento não foi divulgada a partir de 27 de outubro. Caso haja resposta, o texto será atualizado.