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Rubens Valente

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Prévias do PSDB expõem a ficção das filiações partidárias no país

Fila para votação nas prévias do PSDB no Auditório Ulysses Guimarães neste domingo (21) - Rubens Valente / UOL
Fila para votação nas prévias do PSDB no Auditório Ulysses Guimarães neste domingo (21) Imagem: Rubens Valente / UOL
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

21/11/2021 13h16

No papel, o PSDB é um colosso com 1,35 milhão de filiados, o terceiro maior partido nesse quesito no país. Na realidade, minguadas 44 mil pessoas se habilitaram para votar nas prévias do partido realizadas neste domingo (21) para as eleições presidenciais do ano que vem - ou 3,2% do total registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A discrepância se estende por todos os partidos, mas as prévias presidenciais do PSDB permitem confirmar que as filiações partidárias são uma ficção, gerada pela falta de depuração das bases de dados dos filiados registradas na Justiça Eleitoral.

A divergência ocorre porque os dados das filiações informados pelos partidos ao TSE são acumulados ano a ano, não são checados junto aos eleitores e não há lei que obrigue os partidos a fazer a depuração das suas informações. Há uma regra no TSE que determina a atualização, mas se trata de um serviço automático e burocrático, os partidos se limitam a reenviar as mesmas listas dos seus bancos de dados. Desde 1996, os próprios partidos são incumbidos da tarefa de organizar e remeter as listagens para a Justiça Eleitoral.

Assim, uma pessoa que assinou sua ficha de filiação ao PSDB nos anos 90, por exemplo, quando o partido estava forte no país com a Presidência de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), ainda aparece como filiado em 2021. Caso ele já tenha se desistido de apoiar o PSDB e não tenha procurado a Justiça Eleitoral para desfazer sua filiação, segue como tucano.

A dúvida se repete em todas as siglas. Ninguém sabe ao certo se hoje há de fato 2,1 milhões de partidários ativos e militantes do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), a maior sigla em número de filiados no país. Ou 1,5 milhão no PT (Partido dos Trabalhadores), segundo maior partido em filiações no país.

Em 2002, quando o PT foi pioneiro em prévias internas presidenciais - também foram as primeiras prévias presidenciais no partido desde a sua criação, no começo dos anos 80 -, cerca de 170 mil filiados apareceram para votar, abaixo do informado na época ao TSE (cerca de 900 mil). O número hoje informado pelo MDB ao TSE é quase o mesmo de 17 anos atrás. Em 2004, então chamado de PMDB, o partido informou 2 milhões de filiados ao TSE.

Presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo (PE) disse à coluna no auditório Ulysses Guimarães neste domingo (21), em Brasília, onde ocorre a votação presencial das prévias, que elas são "o primeiro movimento de participação democrática para participação no partido" e que o eleitorado do PSDB apto a votar nas prévias "é maior do que o eleitorado de 5,1 mil municípios brasileiros".

"Eram quatro pessoas que decidiam e agora são quase 45 mil pessoas que decidem. Essa é a referência democrática que vale para mostrar a pujança, o poder e o tamanho da força dessa decisão", disse Araújo.

Para o presidente do partido, o PSDB pode reduzir a diferença entre número de filiados e número de militantes ativos "exercitando participação como essa [prévias] e com integração".

"Na história dos partidos políticos brasileiros, esse evento dá o exemplo, é o maior pontapé nessa reviravolta da relação entre os partidos e o seu corpo de filiados."

Araújo disse que o partido realiza cursos para formação de novos líderes e discussões sobre políticas públicas, mas os partidos "vivem de decisão, vivem de votar. O que envolve as pessoas é a disputa, é a luta política, é o que chamam de divisão e que na verdade é eleição".

Araújo discorda que o TSE possa interferir na questão ao exigir, por exemplo, a depuração das listas. "Acho que essa não é a questão. A questão é o grau de envolvimento dos partidos com o seu público filiado. No momento que eles [filiados] se sentem partícipes da decisão, eles se envolvem. É melhor um partido com 50 mil ativos, tem muito mais força, do que 5 milhões que não participam."

Presidente estadual do PSDB no Mato Grosso do Sul e secretário de Governo do governador Reinaldo Azambuja (PSDB), Sérgio de Paula disse que há 39 mil filiados ao partido no Estado. Desse total, 1,7 mil se habilitaram para votar nas prévias - ou 4,3% do total.

O partido é forte no Estado, "com mais de 40% de prefeitos e vereadores", segundo o secretário. Para Sérgio de Paula, o partido "tem que procurar, identificar o filiado". "A gente tem que arrumar um jeito de se comunicar com os filiados."

Para o presidente estadual do PSDB, dois fatores podem ter afetado a participação dos filiados nas prévias: a distância até as eleições de 2022 e os impactos da Covid-19.

O PSDB em Santa Catarina tem 110 mil filiados, mas apenas 1,1 mil se apresentaram aptos para votação nas prévias (1% do total). O secretário-geral do partido no Estado, Gilmar Knaesel, reconhece que muitos filiados, como em todos os outros partidos, "não têm participação ativa e muitos talvez nem se lembrem de estar filiados". Para aumentar a participação do filiado, ele defende "um partido ativo o tempo todo, o ano inteiro, não só durante as eleições".

Para Knaesel, que foi seis vezes deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa, o partido deve investir "em cursos de formação política, em discussões sobre políticas públicas que seu partido defende, e aumentar as conexões entre os políticos eleitos e o partido".