PUBLICIDADE
Topo

Tales Faria

Congresso pisou no freio para Centrão ter tempo de obter espaços no governo

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

30/04/2020 16h05

O Congresso diminuiu seu ritmo de trabalho. Com isso, vai dar tempo ao Centrão para negociar e tirar o máximo do governo até o grupo decidir o que faz da vida.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (que é do DEM do Rio de Janeiro), já deixou claro que nesses tempos bicudos de coronavírus, os parlamentares só pretendem tratar de assuntos relacionados à pandemia.

De mais a mais, senadores e deputados estão de quarentena. As sessões virtuais no plenário não suportam uma superatividade. Se o tema for polêmico, qualquer obstruçãozinha da oposição paralisa os trabalhos.

Foi o que ocorreu, por exemplo, na votação do Contrato Verde Amarelo, iniciada no dia 14 e que varou a madrugada até as 3h da manhã do dia 15.

Ali os comandos da Câmara e do Senado decidiram que será evitada a todo custo a votação de temas polêmicos.

Daí porque decidiu-se centrar no combate ao coronavírus, que tem maior capacidade de unir os parlamentares.

Na prática, o Congresso vai andar à meia boca.

E isto é muito bom para o Centrão, um agrupamento de quase 300 deputados, sem coloração ideológica e espalhados por cerca de 10 partidos que vão da centro-esquerda à centro-direita.

O Centrão sempre mandou na política do país. Fez parte de praticamente todos os governos.

E tem como prática histórica embarcar e desembarcar dos governos na hora certa.

Fez assim até mesmo no regime militar. Apoiou a ditadura e depois rompeu, sem nunca romper, de fato, com os generais.

Fez assim no seu próprio governo, com José Sarney e Ulysses Guimarães, sempre às turras na década de 1980.

Fez assim no governo de Fernando Collor de Melo, no início da década de 1990.

Color assumiu batendo de frente com os partidos, mas acabou encurralado e se viu obrigado a chamar o centrão para ocupar seus principais ministérios, sob o comando de Jorge Bornhausen e Antônio Carlos Magalhães.

O grupo acabou aderindo ao impeachment e conseguiu a proeza de permanecer no governo durante praticamente todo o processo.

Depois, apoiou o governo Itamar Franco, ajudou a eleger o tucano Fernando Henrique Cardoso em seus dois mandatos e continuou dividindo o poder com o sucessor Luiz Inácio Lula da Silva.

O Centrão foi com o PT até o governo Dilma. Mas, quando estourou do Mensalão e o Petrolão, sentiu cheiro de cadáveres e preparou o desembarque.

Pois é, também no governo Dilma o Centrão conseguiu a proeza de desembarcar e, ao mesmo tempo, ficar no governo abocanhando o máximo possível.

Os mesmos MDB, DEM e PP (entre outros) que hoje dão ministros e negociam novos cargos no governo Bolsonaro cederam e negociaram para seus filiados e parlamentares ganharem cargos nos ministérios e no segundo escalão do regime militar e dos governos Dilma e Collor.

Ao mesmo tempo, trabalharam e conseguiram tirar os militares, Dilma e Collor do Planalto ao mesmo tempo em que aderiram ao governo seguinte.

Se Bolsonaro pensa que distribuir cargos ao Centrão é garantia de permanência no poder, é bom ele se colocar as barbas de molho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL