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Regina Duarte foi o maior vexame, saiu muito menor do que quando entrou

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

21/05/2020 15h48

De todos os integrantes do governo defenestrados pelo presidente Jair Bolsonaro, o caso mais comovente foi o da Namoradinha do Brasil.

A ex-secretária de Cultura Regina Duarte assumiu o posto com o tamanho de uma ministra. Entrou mandando brasa, afastando os bolsonaristas de raiz ligados ao poderoso Olavo de Carvalho e indicando quem queria.

É verdade que não tinha muita gente, entre os artistas, querendo se misturar com o governo. Até a turma mais amiga, que mandou mensagens de boa sorte, voltou atrás quando ela divulgou seus nomes.

É verdade que o mais próximos deles, o ator Carlos Vereza, logo tirou o time de campo.

Mas Regina continuou sem entender o porquê.

Não se deu conta de que seis ministros já tinham sido expelidos do governo, alguns sob processo doloroso de fritura, como o ex-secretário-geral da Presidência Gustavo Bebianno e o ministro-chefe da Secretaria de Governo Santos Cruz.

Outros, eram ilustres desconhecidos antes e, hoje, nem lembramos deles, como o ex-ministro da Educação Ricardo Vélez Rodrigues. Lembra? E o general Floriano Peixoto, retirado da Secretaria-Geral do Planalto para cuidar de cartas nos Correios. Saíram ainda Gustavo Canuto, do Desenvolvimento Regional, e o deputado Osmar Terra, que deixou o Ministério da Cidadania para abrir espaço ao amigo Onyx Lorenzoni, que um dia foi o poderoso chefe da Casa Civil.

Gustavo Bebianno sofreu tanto com a fritura que deixou o governo falando ter guardado informações comprometedoras contra o governo escondidas fora do país para apresentar no momento apropriado. Acabou falecendo por problemas cardíacos. Mas essa é outra história.

O fato é que a pobre Regina Duarte não se deu conta de onde estava entrando.

Chegou ao governo em março e, nos dois meses e meio em que esteve no cargo, outros três ministros foram defenestrados em enorme confusão com o presidente: dois na Saúde, Luis Henrique Mandetta e Nelson Teich; e um na Justiça, o ex-todo-poderoso Sergio Moro.

Regina não se deu conta. Pior, fez de tudo para ficar.

Teich, como sentiu que estava sendo humilhado demais com as desautorizações públicas do presidente, acabou pegando seu boné. Se mandou.

Regina, não. Apenas choramingou com uma assessora: "Acho que o presidente quer me demitir."
E ainda foi à TV cantar aquela musiquinha da ditadura militar, "de repente é aquela corrente pra frente"... E brigou no ar com jornalistas e com sua ex-colega Maitê Proença.

Depois, diante da insistência de Bolsonaro em mandá-la embora, negociou um carguinho com a deputada Carla Zambelli (PSL-SP). E pousou com o presidente num videozinho constrangedor de despedida no Palácio da Alvorada.

O resultado dessa história toda é que a pobre Regina se tornou, entre aqueles que deixaram o governo, a que saiu menor, muito menor do que quando entrou.

É de doer o coração.