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Melhor opção do novo governador do Rio é cozinhar Bolsonaro em fogo brando

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

03/09/2020 13h56Atualizada em 03/09/2020 18h11

Fui perguntar ao ex-prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia se há chances de sue partido, o DEM, se aproximar do atual governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, empossado após o afastamento de Wilson Witzel.

Cesar Maia respondeu:

"Não sei. Não fui consultado. Se for, direi que para ele o melhor é ficar sem partido pelo menos até fim do primeiro semestre de 2021."

Vamos por partes, como diria o esquartejador.

Primeiro esclareço que Cesar Maia hoje é conhecido como o pai do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, mas na verdade ele é muito mais do que isso.

Foi o prefeito do Rio que mais tempo permaneceu no cargo, por 12 anos em três mandatos. É um economista e analista político muito respeitado. Originário do brizolismo, acabou rompendo com Brizola e transitou pelo MDB até se fixar no DEM.

Não adianta ouvir Cesar Maia como um apêndice do filho. Os dois são entidades independentes, apenas com laços familiares e de apreço em comum.

Pois bem. Por que Cesar Maia diz que o melhor para Cláudio Castro é ficar sem partido até 2021? Elementar, meu caro!

Hoje o novo governador está sendo cortejado pelo bolsonarismo, especialmente pelo senador Flávio Bolsonaro, o filho do presidente da República acusado de envolvimento no escândalo das rachadinhas.

É muito fácil, para um governador recém-empossado de um estado em crise política e financeira, como o Rio de Janeiro, se deixar seduzir pelos encantos, verbas e possibilidades de acertos com o governo federal.

Então por que não aderir agora? Afinal, hoje a situação de Bolsonaro não está tão ruim assim. Sua popularidade resiste à pandemia. E o acordo com o centrão parece ter-lhe blindado contra o impeachment, apesar da prisão de Fabrício Queiroz e dos cheques na conta da primeira-dama.

Eu explico: não vale a pena aderir agora porque tudo isso em torno de Bolsonaro aponta para o que na física chama-se de "equilíbrio instável". Funciona como uma bola equilibrada no pico de uma pirâmide: qualquer ventinho e ela cai.

Não se sabe o que vai acontecer com rachadinhas, caso Fabrício, pandemia e, sobretudo, com a economia, as contas públicas e o desemprego até 2022, quando haverá nova eleição para presidente da República.

Se Cláudio Castro não aderir agora, mas também não romper com o governo federal, poderá fazer como faz o centrão: se beneficiar ao máximo e, depois, decidir seu futuro.

E o presidente Bolsonaro, assim como seu filho Flávio, não vai querer abrir uma nova guerra com um dos poucos governadores com quem os bolsnaristas de raiz ainda podem se entender.

Viu como Cesar Maia entende de política? O filho teve com quem aprender, não é mesmo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL