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Tales Faria

Será Bolsonaro um novo Jânio Quadros?

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

12/11/2020 15h24

Confesso que ainda era um bebê no governo de Jânio Quadros. Mas pelo que li, e pelo que ficou na história, o homem era meio destrambelhado mesmo. E tem semelhanças com o atual presidente da República, Jair Bolsonaro.

As similitudes começam pela campanha eleitoral: a do Jânio foi com a história da vassourinha que iria varrer os políticos corruptos. Bolsonaro, como se sabe, foi eleito na esteira da Operação Lava Jato e com o discurso de que acabaria com a velha política.

Depois, no governo, ambos mostraram mais preocupação com a pauta de costumes do que com qualquer outra coisa. Jânio, proibindo biquinis e briga de galo. Bolsonaro, preocupado com radares móveis nas estradas e em combater temas como aborto, maconha, et cetera.

A diferença é que Jânio parecia ter uma formação acadêmica melhor, maior domínio da língua portuguesa. Mas, como o atual presidente, Jânio Quadros surpreendia com gestos histriônicos e declarações bombásticas. Era, digamos, meio maluco.

No final das contas, Jânio acabou cometendo um gesto radical: a renúncia ao cargo na tentativa de levar às ruas seus apoiadores contra as tais "forças terríveis", como ele chamou na carta de despedida.

A renúncia de Jânio não levou o povo às ruas para mantê-lo no cargo, mas, contam os historiadores, acabou resultando no golpe militar de 1964.

Dizia o texto da carta-renúncia:

"Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha autoridade."

E, mais adiante:

"Saio com um agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade.

No parágrafo final ele dizia:

"Somente assim seremos dignos de nossa herança e da nossa predestinação cristã"

Não soa parecido com muito do que tem dito o atual presidente?

Bolsonaro reclama que o Judiciário e o Congresso não o deixam governar. Fala que o Brasil é uma "nação cristã" e, como Janio, tem rompantes que levam alguns analistas a desconfiar de sua sanidade mental, como essa última de ameaçar usar pólvora contra os Estados Unidos se a diplomacia não der certo.

Resta torcer para que ele não acabe cometendo algum gesto mais radical que faça desandar de vez a história do país.

No entanto, essa de declarar guerra aos Estados Unidos lembra aquele filme antigo, "O rato que ruge". Peter Sellers no papel de chefe de uma republiqueta, declara guerra aos Estados Unidos e invade Nova York. Mas não vou contar o final.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL