PUBLICIDADE
Topo

Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Assim como chapas sem cabeça, também existem mulas sem cabeça

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

17/06/2021 11h03

Você não acredita em mula sem cabeça? Pois saiba que, em se tratando de eleições, elas existem sim. Ou acha que foi coisa natural a ascensão do capitão insubordinado Jair Bolsonaro a comandante supremo do Palácio do Planalto e das Forças Armadas? O Sobrenatural de Almeida, aquele personagem do Nelson Rodrigues, não apareceu apenas para assombrar o futebol, também se mete na política.

Eu jamais imaginei que um dia Bolsonaro seria eleito presidente da República. Cobri o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, quando nunca antes na história desse país um presidente havia sofrido impedimento.

Também não imaginei que fosse ver um novo impeachment tão cedo, e vi Dilma Rousseff, a sucessora honesta -sim, honesta!- do ex-presidente Lula, ser apeada do poder. Também não imaginava ver Lula na cadeia e, agora, ele tem boas chances de ser eleito.

A mula sem cabeça está solta. Ou você acha que Bolsonaro não será reeleito de jeito nenhum?

Aí, diante da óbvia polarização entre Lula e Bolsonaro, muita gente começa a acreditar que a mula foi embora. Mas eis que partidos de centro e de centro-esquerda, não alinhados com Lula, nem com Bolsonaro, resolveram começar a discutir a formação de uma chapa para as eleições presidenciais de 2022. Não têm candidato ainda. É uma chapa sem cabeça.

A primeira reunião do grupo foi um almoço nesta quarta-feira aqui em Brasília. Os sete partidos que lá estavam prometem se reunir a cada 15 dias. Cada um deles ficou de buscar o candidato de sua preferência e começar a trabalhar o nome por conta própria.

Mas vão continuar se reunindo e discutindo uma pauta mais ou menos comum. Lá para o início do ano que vem começam a pensar se dá mesmo para fazer a tal chapa unificada.

Vai dar certo? Tem muita gente por aí que acha impossível. Eu também acho pouco provável. Mas assim como existem mulas sem cabeça, Sobrenatural de Almeida e chapas sem cabeça, também existe o Gravatinha. Sabe quem era.

Era outro personagem do Nelson Rodrigues. O Sobrenatural de Almeida aparecia para atrapalhar o time para que o nosso grande cronista torcia. Mas o Gravatinha não. Vinha do além para fazer as coisas darem certo.

Eu não creio em bruxas. Nem em fadas. Mas que elas existem, existem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL