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Thaís Oyama


Mourão está de volta

Thaís Oyama Thais Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Thais Oyama

Colunista do UOL

30/03/2020 04h00

Hamilton Mourão está de volta.

O vice-presidente fez duas aparições em grande estilo.

Ontem, deu uma entrevista para a Folha de S. Paulo (o jornal que o presidente Bolsonaro tem como inimigo) e disse que falta coordenação ao governo no combate à pandemia do coronavírus. Perguntado sobre como conduziria a crise, tinha a resposta na ponta da língua e discorreu alegremente sobre ela.

Antes, já havia convocado uma entrevista coletiva no dia seguinte ao desastroso pronunciamento em que Bolsonaro pediu a "volta à normalidade" às pessoas que estavam em casa obedecendo recomendações do seu ministro da Saúde. Na coletiva, Mourão foi na contramão do presidente - afirmou que "a posição do governo" era de "isolamento e distanciamento social.

O vice estava praticamente mudo desde o ano passado.

Em abril de 2019, ele havia dado várias declarações que colidiam com as de Bolsonaro. Para lembrar algumas: o presidente dizia que o nazismo era um movimento de esquerda, Mourão retrucava que "de esquerda é o comunismo"; Bolsonaro se pronunciava contra a descriminalização do aborto, Mourão defendia que era "uma opção da mulher"; Bolsonaro falava em transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, o vice garantia que a mudança não iria ocorrer. Com isso, o general conquistou olhares simpáticos dos contestadores de Bolsonaro - e também a ira do filho 02 do ex-capitão. Carlos Bolsonaro abriu fogo nas redes sociais contra o vice - a quem passou a se referir como "esse tal de Mourão". A briga só acabou quando Jair Bolsonaro, por meio do hoje áfono porta-voz da presidência, general Otávio Rêgo Barros, determinou que filho e vice colocassem um ponto final na pendenga.

Depois disso, Mourão submergiu.

No mês passado, depois de um claustro de dez meses, o general ganhou um prêmio - o comando do Conselho da Amazônia, antes sob a tutela do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Salles jogou para o alto 300 milhões de reais ao tentar centralizar as decisões sobre o uso do dinheiro do Fundo Amazônia, destinado à defesa e desenvolvimento da floresta. As mudanças nas regras instituídas pelo ministro em agosto de 2019 foram rejeitadas pelos principais mantenedores do fundo, os governos da Alemanha e da Noruega. Desde então, eles suspenderam os repasses que serviam tanto para bancar pesquisas sobre a região como para encher os tanques dos veículos encarregados de fiscalizar a derrubada de árvores.

Como resposta à suspensão dos repasses, Salles esticou a corda e as relações do ministério com os governos europeus se esgarçaram. As declarações incendiárias do presidente Bolsonaro sobre as queimadas da Amazônia tampouco ajudaram a melhorar o clima com os europeus e a fazer o dinheiro do Fundo voltar.

A solução foi convocar o vice Mourão. Com o peso do seu cargo, seu conhecimento da Amazônia (como general do Exército, ele é um estudioso dos problemas da região e já comandou a concorrida 2ª Brigada de Infantaria de Selva em São Gabriel da Cachoeira) e suas boas relações com governos da Europa e Ásia, ele teria mais chances de refazer pontes do que o desgastado ministro Salles.

Mourão agarrou a oportunidade com unhas e dentes. Nunca quis ser um vice decorativo e se ressentia de estar sendo subutilizado no governo.

Agora, o conselho da Amazônia surge como uma bela oportunidade para o vice voltar à cena e fazer política - como fez na semana passada.

No momento em que tanto o coronavírus quanto o presidente Bolsonaro parecem estar fora de controle, o vice quer mostrar que está vivo e operante.

Vai que precisam dele.

Thaís Oyama