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Thaís Oyama


Estratégia do governo é "diluir" Mandetta

Luiz Henrique Mandetta, ainda ministro da Saúde - UESLEI MARCELINO
Luiz Henrique Mandetta, ainda ministro da Saúde Imagem: UESLEI MARCELINO
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

06/04/2020 20h58

Os generais Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos, ministros da Casa Civil e da Secretaria de Governo, foram os principais fiadores da permanência de Henrique Mandetta no governo, que nesta tarde esteve por um fio. Em coletiva dada agora há pouco, o ministro disse que assessores "chegaram a limpar" suas gavetas. Os generais Braga Netto e Ramos convenceram o presidente Jair Bolsonaro que seria desastroso substituir o titular da Saúde perto do pico da pandemia do coronavírus no Brasil, e que o melhor a fazer neste momento seria tentar "buscar denominadores comuns" com ele. O compromisso de estudar a ampliação do uso da hidroxicloroquina para além dos pacientes em estados grave e crítico é um desses "denominadores comuns"; a ideia de relaxar gradualmente o isolamento social, que já estava nos planos da equipe de Mandetta, é outro.

A permanência do ministro no governo, porém, não agradou a todos os assessores militares do presidente no Palácio do Planalto. Entre os que partilham da opinião do chefe, que considera o titular da Saúde "arrogante" e "dono da verdade", a crítica mais frequente é de que ele desafia diária e publicamente a autoridade de Bolsonaro. "É inadmissível que um presidente seja comandado por um ministro", diz um deles.

Por ora, a turma do "deixa disso" levou a melhor. Henrique Mandetta fica no governo, mas seus poderes serão diluídos. Como ficou combinado na reunião de hoje à tarde com os ministros, Bolsonaro irá "ouvir outras vozes". Essas vozes incluem a imunologista Nise Yamaguchi, entusiasta do uso precoce da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19; o ex-ministro Osmar Terra, favorável à estratégia do isolamento vertical defendida por Bolsonaro; e os diretores de saúde do Exército, Marinha e Aeronáutica, com quem Bolsonaro se reuniu na última sexta-feira no Palácio do Planalto. No início da noite, Mandetta anunciou que permanece no cargo. "Vamos continuar a trabalhar", declarou o ministro. Resta saber se o chefe deixará.

PS: A partir das 16h, quando a informação sobre a iminência da demissão do ministro se disseminou, um tsunami digital varreu a internet em defesa de Mandetta. O ministro alcançou a maior taxa de citações em um único dia no Twitter, considerando o último mês, segundo a agência Bites. Às 16h, eram 216 mil os posts em seu favor. Às 19h, esse número subiu para 466 mil e, às 20h30, o número de tuítes em defesa do ministro chegou a 489 mil. Seu nome permanecia até as 20h50 nos trending topics mundiais da plataforma. Os aliados do presidente tentaram esboçar uma reação e criaram um conjunto de hashtags negativas sobre o ministro, mas até as 20h tinham conseguido publicar no Twitter apenas 81 mil citações contrárias a ele.

Thaís Oyama