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Thaís Oyama


Pronunciamento de Bolsonaro marca guinada na estratégia de comunicação

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

08/04/2020 22h30Atualizada em 09/04/2020 13h19

Odorico Paraguaçu teria aplaudido.

O último pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na TV marcou uma guinada na estratégia de comunicação de seu governo.

Foi a quinta aparição do ex-capitão em cadeia nacional de rádio e TV desde a decretação da pandemia. Além do discurso, Bolsonaro deu outra entrevista a Datena — a segunda em uma semana. Sikêra Júnior deve ser o próximo. Os dois apresentadores de televisão têm nas classes D e E sua principal audiência.

As iniciativas atestam que Bolsonaro cedeu aos conselhos de assessores militares do Planalto. Contrariamente aos integrantes do "gabinete do ódio", eles sempre defenderam que as mensagens presidenciais transmitidas por lives nas redes sociais "não chegam à dona Maria" e que o presidente deveria falar mais "ao povão". A última pesquisa Datafolha coroou a vitória do núcleo militar. Ela mostrou que, na crise do coronavírus, os desfavorecidos são os apoiadores mais leais do presidente.

Assim, o discurso de ontem foi construído sob medida para falar a esse público.

O texto buscou capitalizar as ações do governo federal especialmente junto aos eleitores do Nordeste, onde o presidente enfrenta mais resistência. Bolsonaro reiterou a paternidade de projetos como o que estipulou em 600 reais o valor do auxílio a trabalhadores informais e o que determinou a suspensão, por três meses, da cobrança de energia elétrica para os mais pobres. Mas, acima de tudo, ele reivindicou os louros pela ampliação do uso da cloroquina no Brasil para o tratamento da Covid-19.

Elogiou a si próprio por ter "começado a divulgar há quarenta dias" a possibilidade de os médicos ministrarem o fármaco ainda na fase inicial da doença e agradeceu ao cardiologista Roberto Kalil, infectado e curado do coronavírus, por ter admitido tanto o uso do medicamento como o fato de tê-lo receitado a seus pacientes.

A cloroquina, esperam assessores palacianos, será doravante "o remédio do Bolsonaro". Para o presidente, ela é uma tábua de salvação - e seu trampolim eleitoral. Diz um militar com assento no Palácio do Planalto: "Se ficar claro que ele tinha razão quanto aos prejuízos do isolamento social e os benefícios da cloroquina, nós invadimos o Nordeste".

Neste caso, vaticina o militar, Bolsonaro será "o pai da cloroquina" —talqualmente o prefeito Odorico Paraguaçu, o antológico personagem de Dias Gomes na novela "O Bem-Amado", era o "pai do povo".

E que se danem os panelaços do Leblon.

Thaís Oyama