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Thaís Oyama


A chance que Bolsonaro perdeu ao não ter de mostrar seus exames

 Bolsonaro come gelatina no hospital Albert Einstein, em foto publicada em fevereiro do ano passado em suas redes sociais - Reprodução/Twitter Jair M. Bolsonaro
Bolsonaro come gelatina no hospital Albert Einstein, em foto publicada em fevereiro do ano passado em suas redes sociais Imagem: Reprodução/Twitter Jair M. Bolsonaro
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

09/05/2020 14h49

Quando o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro sofreu um atentado à faca, em setembro de 2018, a ordem que deu aos filhos e assessores foi para que tratassem do assunto com transparência. Mandou divulgar cada informação sobre as suas internações, cirurgias e evoluções de quadro, incluindo se havia tido enjoos, almoçado e evacuado. Posou para fotos com sonda nasal, bolsa de colostomia e barriga de fora.

Bolsonaro não teve receio de se expor e nada escondeu do público.

Agora presidente, e suspeito de ter se contaminado pelo coronavírus, fez tudo diferente. Líder de uma comitiva que voltou dos Estados Unidos com 23 infectados, o ex-capitão se recusou a mostrar os resultados dos seus exames. Limitou-se a dizer no Twitter que deram negativo. Quando o jornal "O Estado de S.Paulo" obteve na Justiça o direito de ter acesso aos laudos, Bolsonaro mobilizou seus advogados e o aparato da Advocacia Geral da União para escondê-los.

"Isso pertence à minha intimidade", afirmou.

O presidente aparenta estar bem de saúde.

O pedido de entrega dos laudos, portanto, não se deve à suspeita de que ele padece da doença que já matou 10 mil brasileiros.

Tampouco a apresentação dos testes serviria para dizer se o ex-capitão pode estar contaminando as pessoas de quem se aproxima hoje. Os exames cuja entrega a Justiça determinou foram feitos nos dias 12 e 17 de março — há quase dois meses, portanto. É tempo suficiente para que o examinado tenha deixado de ser um transmissor (o que não elimina a possibilidade de Bolsonaro ter contraído o vírus depois dessas datas e estar infectando pessoas nas aglomerações que insiste em promover, mas isso já não tem nada a ver com os testes em questão).

Se a preocupação não é com a saúde do presidente nem com a possibilidade de os laudos mostrarem que ele anda espalhando o coronavírus por aí, para que serve a sua apresentação?

Serve para os brasileiros se assegurarem de que, quando afirmou que seus testes deram negativo, o presidente da República disse a verdade.

Na semana passada, Bolsonaro determinou à AGU que recorresse pela segunda vez da ordem judicial para que mostrasse os testes. Na sexta-feira, o ministro do STJ Otavio Noronha decidiu que essa obrigatoriedade "feriria os direitos civis" do presidente.

Bolsonaro não terá de mostrar os seus exames. Mas, ao ganhar a briga na Justiça, perdeu a chance de mostrar ao país que não é um mentiroso.

Thaís Oyama