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Thaís Oyama


O método Bolsonaro de tirar coelhos da toca

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

02/06/2020 13h02

Jair Bolsonaro não exige lealdade apenas incondicional de seus aliados, faz questão de que ela seja pública.

Incomodam o presidente ministros e aliados que, nos embates travados pelo governo, se acomodam na "zona de conforto" - ou seja, não tomam suas dores publicamente e evitam se desgastar junto à imprensa.

Já estiveram nessa categoria o ex-ministro Sérgio Moro, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e, mais recentemente, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

Nos dois enfrentamentos com o Supremo Tribunal Federal em que o presidente chegou a falar de forma explícita em ruptura institucional (a suspensão da nomeação do delegado Alexandre Ramagem para a direção da Polícia Federal e a discussão sobre a possibilidade de apreensão do celular de Bolsonaro pela Justiça), os ministros de governo mais próximos do presidente foram instados a defendê-lo em público.

Azevedo e Silva respondeu à cobrança ao endossar a nota em que o general Augusto Heleno ameaçou o STF com "consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional", caso a Corte permitisse a apreensão do telefone presidencial. Foi criticado por colocar as Forças Armadas no meio de uma briga de governo e maculou a aura de representante "moderado do núcleo militar do Planalto" - mas ganhou pontos com o chefe e seu entorno mais radical.

Agora, é o general Ramos quem aparece pagando o pedágio. Ontem, em mensagem farta de pontos de exclamação, o militar criticou o ministro do STF Celso de Mello pela mensagem infeliz publicada num grupo de Whatsapp em que o decano, entre outras impropriedades, comparou o Brasil à Alemanha nazista.

"Comparar o nosso amado Brasil à 'Alemanha de Hitler' nazista é algo, no mínimo, inoportuno e infeliz. A Democracia Brasileira não merece isso. Por favor, respeite o Presidente Bolsonaro e tenha mais amor à nossa Pátria!", escreveu o general no Twitter.

Não por acaso, no dia anterior, o blogueiro bolsonarista investigado no inquérito da Fake News Allan dos Santos havia atacado o ministro Ramos nas redes sociais. Escreveu que, caso o general não se manifestasse a respeito de críticas que vinham sendo feitas ao governo, poderia ser considerado "um traidor comunista dentro do Planalto".

Moro, Azevedo e Silva e um punhado de deputados aliados do governo já sentiram o bafo quente das redes sociais e sabem de onde ele vem. O blogueiro Allan dos Santos, por exemplo, é unha e carne com a deputada Bia Kicis que, por sua vez, é das primeiras a receber o novo número do presidente quando ele troca de celular.

Bolsonaro tem convicção de que está sendo perseguido, que tramam contra ele e que há coelhos demais nas tocas.

Thaís Oyama