PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Thaís Oyama


Bolsonaro é o Chacrinha do apocalipse

Imagem do filme "Chacrinha, o velho guerreiro": vocês querem bacalhau?  - Divulgação/Globo
Imagem do filme "Chacrinha, o velho guerreiro": vocês querem bacalhau? Imagem: Divulgação/Globo
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

23/06/2020 13h02

Não é por acaso que a derradeira providência de Abraham Weintraub como ministro da Educação tenha sido uma revogação (neste caso, de uma portaria que estipulava cotas para estudantes de cursos de pós-graduação, já tornada sem efeito hoje pelo ministro interino).

Tampouco foi por acaso que um dos primeiros gestos do ministro ao assumir o lugar do breve Ricardo Vélez tenha sido um desfalque. Com um espalhafato que o trouxe pela primeira vez às luzes da ribalta, Weintraub anunciou que cortaria verbas de universidades que promovessem "balbúrdia".

Ao conjugar, na entrada e na saída, verbos de demolição, o ex-ministro Weintraub apenas seguiu a cartilha do bolsonarismo.

"Eu não vim para explicar, eu vim para confundir", dizia o apresentador Chacrinha antes de perguntar à plateia se queria bacalhau.

Bolsonaro poderia parodiá-lo: "Eu não vim para governar, eu vim para destruir".

Esse é o ethos do governo Bolsonaro, herdado do olavismo: pôr abaixo. Sejam árvores, sejam políticas de saúde ou educação, a prioridade é desfazer, expurgar, revogar, acabar.

Foi assim desde o início. Um dos primeiros atos do governo Bolsonaro, em janeiro de 2019, foi a exoneração de 320 funcionários federais. Para o ex-capitão, a máquina pública estava infestada de inimigos, os "esquerdistas", e era preciso "despetizá-la". Por pouco o novo governo não começa com um apagão administrativo.

É neste ponto que o bolsonarismo dá as mãos ao olavismo. Bolsonaro, embora jamais tenha assistido a uma aula de Olavo de Carvalho, e talvez não compreenda bem o significado da expressão "guerra cultural", compartilha com o professor de filosofia online a ideia do que deva ser a prioridade de um governo.

Em março do ano passado, num jantar com lideranças conservadoras em Washington, o presidente dirigiu-se ao professor em seu discurso:

"Prezado Olavo de Carvalho, o Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo", disse. E afirmou:

"Nós temos que desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa, para depois começar a fazer".

Ninguém pode afirmar que Bolsonaro não está cumprindo a primeira parte da tarefa a que se propôs. O problema é que se um dia iniciar a segunda, a de "começar a fazer", poderá restar do país que o elegeu apenas escombros.

Thaís Oyama