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Thaís Oyama


Pressão de militares fez ministro da Defesa emitir segunda nota

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

13/07/2020 14h18

Se a orelha do ministro do STF Gilmar Mendes ardeu no sábado, foi a do ministro Fernando Azevedo e Silva que pegou fogo de domingo até a manhã de hoje.

No sábado, Gilmar afirmou em uma live que o Exército Brasileiro "está se associando a esse genocídio", numa referência à presença do general Eduardo Pazuello como interino da Saúde e aos mais de 70 mil brasileiros mortos pelo coronavírus.

Ontem, domingo, o Ministério da Defesa foi solicitado pela imprensa a comentar a fala do ministro do STF. Em resposta, divulgou um texto que se limitou a elencar as ações das Forças no combate à pandemia, sem citar o nome de Gilmar. Pelo texto, Azevedo e Silva foi espinafrado por membros do Exército e generais do Palácio.

Grupos de Whatsapp de militares, incluindo os que reúnem comandantes da ativa, amanheceram repletos de frases indignadas contra a mensagem do ministério da Defesa, considerada "tíbia", para dizer o mínimo.

Os militares se indignaram com a associação do Exército à palavra "genocídio", e exigiram uma resposta mais dura do ministro da Defesa ao magistrado. No Palácio, assessores militares da Presidência lembravam que Gilmar Mendes "não pode nem sair às ruas, com medo do povo". E perguntavam: "Quem é ele para falar do Exército?".

O ministro Azevedo e Silva, visto como uma voz moderada entre os generais do Palácio, desta vez compartilhou da indignação de seus pares, mas disse a interlocutores que esperava um recuo de Gilmar ainda no domingo. O recuo, como se viu, nunca veio e a grita dos militares fez com que o general emitisse uma segunda mensagem no início da tarde — vários tons acima da primeira, com citação nominal ao magistrado e co-assinada pelos comandantes das três Forças.

A evolução da situação depende agora da resposta da Procuradoria-Geral da União, a quem a Defesa prometeu pedir as "providências cabíveis" contra o ministro do STF.

Mas uma pessoa ao menos já lucrou com o episódio. Como afirmou um assessor palaciano, o presidente Bolsonaro teve o gostinho de ver suas imprecações contra a Corte reproduzidas pelos generais, agora em alto e bom som.

Thaís Oyama