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Thaís Oyama


Thaís Oyama

Por que a ação do MPF em prol das mulheres e dos gays beneficia Bolsonaro

Jair Bolsonaro: hora de arrumar outra bandeira - Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro: hora de arrumar outra bandeira Imagem: Marcos Corrêa/PR
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

11/08/2020 12h11

Ao mover uma ação contra o presidente Jair Bolsonaro por "postura estatal inadequada" no tratamento de assuntos relativos às mulheres, o Ministério Público Federal deu um presentão ao ex-capitão.

O MPF alegou que certas iniciativas de Bolsonaro revelam "viés preconceituoso e discriminatório contra o público feminino". A convicção de que a retórica presidencial pode resvalar para políticas públicas danosas às mulheres levou à manifestação dos procuradores (que poderiam ter dispensado a tentativa de dizer onde o governo deve alocar recursos públicos, como fizeram ao exigir a promoção de "campanhas de conscientização" sobre os direitos das mulheres, mas isso é outro assunto).

Ocorre que, ao cumprir o seu papel de fiscal da lei, o MP levou a discussão precisamente para o território em que Bolsonaro deita e rola - a pauta de costumes que mobiliza o bolsonarismo raiz e que até agora ele não conseguiu fazer avançar no seu governo.

A ideia da "escola sem partido" e as tentativas de varrer a "ideologia de gênero" na sala de aula acumularam derrotas em série no Supremo Tribunal Federal. Da mesma forma, a promessa de flexibilizar o Estatuto do Desarmamento naufragou no Congresso.

Para piorar a situação, Bolsonaro ateou fogo nas mais vistosas bandeiras da sua campanha. A da Lava Jato se esgarçou com a saída de Sérgio Moro do governo e virou pano de chão com os ataques do aliado e Procurador-Geral da República, Augusto Aras.

A do combate à velha política hoje arranca gargalhadas da oposição e silêncios constrangidos dos apoiadores do ex-capitão (o que dizer de um presidente que passeia de mãos dadas com o Centrão e beija a mão do MDB de Michel Temer?).

Quanto ao antipetismo, o outro grande trunfo de campanha bolsonarista, este perdeu força desde que Bolsonaro derrotou o partido de Lula nas urnas.

Assim, sem moral e sem bandeira, tudo o que o presidente poderia pedir aos céus era que alguém lhe desse um bom discurso para levantar a galera.

O "anti-identitarismo" lhe caiu como uma luva.

A imagem do Bolsonaro que "fala o que todo mundo pensa", debocha dos gays e defende que bandido bom é bandido morto já fazia sucesso em 2018. Agora, com o fortalecimento dos movimentos de defesa das minorias —e sobretudo diante das práticas autoritárias que eles muitas vezes tentam impor- o presidente encontrou o perfeito catalisador para reorganizar as dispersas hostes bolsonaristas.

As prioridades dos negros, gays, das mulheres e outras minorias podem divergir. Já o ressentimento dos que se sentem preteridos na condição de maioria, une. Bolsonaro sabe que aí tem para ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Thaís Oyama