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Thaís Oyama


Thaís Oyama

Bolsonaro precisa mais do PSL que o PSL dele

Bolsonaro e Bivar, na época em que tudo eram flores - Divulgação/PSL - 5.jan.2018
Bolsonaro e Bivar, na época em que tudo eram flores Imagem: Divulgação/PSL - 5.jan.2018
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

15/08/2020 10h47

Jair Bolsonaro anda dizendo por aí que está '99%' decidido a voltar ao PSL.

Para usar a metáfora sentimental ao gosto do presidente, é como se alguém anunciasse estar "disposto" a reatar um casamento que terminou em briga feia e até sopapos e litígio na Justiça. É o tipo do caso em que uma reconciliação exige bem mais do que "disposição" de uma das partes.

Em meados do ano passado, influenciado pelo filho Eduardo, Bolsonaro achou que deveria tomar para si o controle do partido que, acreditava — e com razão— que sem ele não seria o que é.

Quando se filiou à sigla, no início de 2018, o PSL tinha apenas trinta prefeitos nos 5570 municípios da federação e um único deputado federal eleito em 2014. Para as eleições de 2018, contava com míseros oito segundos de TV por bloco, menos do que teve em 1989 o deputado Enéas Carneiro. Tracionado por Bolsonaro, o PSL saiu das eleições de 2018 com nada menos que três governadores, quatro senadores e 52 deputados federais.

Já que havia "feito" o partido, Bolsonaro deveria ter controle sobre ele, era o raciocínio do seu grupo. O presidente da sigla, Luciano Bivar, porém, reagiu à investida e a briga evoluiu para ataques sangrentos.

Aliados de Bolsonaro chegaram a revolver e divulgar na imprensa um episódio trágico do passado de Bivar que, por causa disso, afirmou a amigos que "nunca mais teria condições de sentar na mesma mesa" que o ex-capitão.

Na época, Bolsonaro ainda acionou a Procuradoria-Geral da República para pedir a destituição de Bivar da presidência do PSL e o bloqueio de repasses do fundo partidário para a sigla — porque, claro, como na maior parte das separações litigiosas, essa teve briga por dinheiro também.

E é dinheiro novamente o que está em jogo agora.

Até as próximas eleições presidenciais, o PSL vai receber em torno de 700 milhões de reais com a soma dos fundos partidário e eleitoral. É mais do que receberá o PT e bem mais do que ganharão todos os outros partidos. Bolsonaro, que em 2018 se elegeu com não mais do que 10 milhões de reais, sabe que desta vez será diferente. O escrutínio a que estará submetido como presidente da República desaconselha vivamente o uso da máquina pública como, por exemplo, aviões da Presidência para deslocamentos a comícios.

O PSL cresceu graças a Jair Bolsonaro, mas sobreviveu sem ele, e nas próximas eleições, espera fazer entre 50 e 55 deputados federais. Bolsonaro, o presidente sem partido, vê seu Aliança Brasil fazer água e sabe o custo político que enfrentará se, por falta de alternativas, se vir forçado a abrigar-se numa legenda de aluguel qualquer, de reputação duvidosa e lideranças condenadas na Justiça.

Hoje, o presidente precisa mais do PSL do que o PSL dele. E lideranças decisivas da sigla ainda não digeriram certas mágoas do passado.

Bolsonaro terá de gastar muitos buquês de flores se quiser voltar para casa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Thaís Oyama