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Thaís Oyama

Na Europa, covid agora mata menos. No Brasil, governo nada contra corrente

Pazuello e Bolsonaro: cadê o ministro da Saúde? - Reprodução/Youtube
Pazuello e Bolsonaro: cadê o ministro da Saúde? Imagem: Reprodução/Youtube
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

25/11/2020 10h28

O governo Jair Bolsonaro deixou mofando boa parte do dinheiro liberado para o combate da pandemia do coronavírus no país. Ficaram intactos valores destinados a equipar hospitais, contratar médicos e comprar testes para monitorar o avanço da covid-19.

A conclusão é da consultoria técnica de Orçamento da Câmara dos Deputados. Em julho, o Tribunal de Contas da União já havia chegado à mesma conclusão.

A incapacidade do governo de executar as medidas que ele mesmo previu pode ter novas e drásticas consequências acaso se constate que a segunda onda do coronavírus chegou mesmo ao Brasil.

Na maioria dos países da Europa ocidental, a nova onda da pandemia está se caracterizando por ser menos letal que a primeira.

No Reino Unido, por exemplo, desde setembro, a porcentagem de pacientes que morreu depois de um período de 28 dias de internação caiu de 39% para 27%.

Especialistas afirmam que essa queda da letalidade não necessariamente se deu em razão de uma mutação ou "enfraquecimento" do vírus.

Médicos já evoluíram no tratamento a pacientes

Na raiz do fenômeno estaria, por exemplo, o fato de a doença agora atingir um segmento mais resistente, o dos mais jovens (o que seria explicado pelo "efeito ceifa", já que os idosos, mais vulneráveis, foram as vítimas preferenciais na primeira onda).

Mas a grande mudança a justificar a queda na proporção das mortes seria o aprendizado que os quase nove meses de pandemia conferiram a cientistas, médicos e a população em geral.

Neste período, pesquisadores descobriram, por exemplo, que certos corticoides produzem uma ação anti-inflamatória eficaz contra a covid-19.

Médicos passaram a identificar o momento mais adequado para a intubação dos pacientes e a adotar pequenos truques que a prática tratou de recomendar, como o de colocar o doente de bruços a fim de aumentar sua capacidade de oxigenação.

No Brasil, cloroquina e governantes sem máscara

Da parte da população, hábitos como o do distanciamento social e uso constante de máscaras podem ter ajudado a diminuir a "quantidade de coronavírus" recebida pelas pessoas infectadas. Isso porque, em muitas infecções respiratórias, uma carga viral mais baixa tende a produzir uma doença menos grave.

Assim, uma triste conclusão se insinua para os brasileiros.

Se entre os itens que contribuíram para menor letalidade da segunda onda de coronavírus na Europa estão o uso de remédios mais modernos e mais eficazes e o empenho dos governos em disseminar a necessidade das medidas de prevenção, pouco otimismo pode inspirar um país em que as autoridades continuam propagandeando a cloroquina, tanto o presidente da República quanto o ministro da Saúde fazem questão de desfilar sem máscaras, milhões de testes de coronavírus são esquecidos num depósito e o governo é incapaz de gastar o que ele mesmo previu que seria necessário.

A segunda onda de coronavírus na Europa está matando menos gente.

Será assim também no Brasil?

A depender do governo federal, certamente não.

O descaso com o dinheiro disponível dá a medida do desdém com que ele encarou a primeira onda da pandemia —e antecipa como tratará a que agora se avista.