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Thaís Oyama

Em breve, ninguém mais vai dar bola para o que diz Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro: a libertação está próxima -  Marcos Corrêa/PR
O presidente Jair Bolsonaro: a libertação está próxima Imagem: Marcos Corrêa/PR
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

20/11/2020 12h24

O presidente Jair Bolsonaro desistiu de divulgar a prometida "lista de países que importam madeira ilegal" do Brasil.

Na terça-feira, diante dos presidentes da Rússia, Índia, China e África do Sul, o brasileiro havia dito, solene: "Revelaremos nos próximos dias o nome dos países que importam essa madeira ilegal nossa (...) estaremos mostrando que estes países, alguns deles que muito nos criticam, em parte têm responsabilidade nessa questão".

A declaração provocou um corre-corre entre diplomatas e protestos do embaixador da Dinamarca no Brasil. Nicolai Pritz lembrou ser incorreto culpar nações inteiras por crimes que, se cometidos, terão partido de empresas e não de governos.

Ontem, em sua live semanal, afora uma ou outra menção genérica à Alemanha e à França, o presidente mudou o rumo da conversa. Tratou de ecoar o embaixador da Dinamarca quanto à responsabilidade pela importação de madeira ilegal ser das empresas e não das nações e ainda afirmou o exato oposto do que havia declarado na reunião dos Brics. "A gente não vai acusar nenhum país aqui de cometer nenhum crime ou de ser conivente com crime".

E nada de lista.

Em breve, Jair Bolsonaro poderá dizer o que quiser sem temer pelas consequências.

Isso porque, antes de ficarem indignadas, perplexas ou alarmadas, as pessoas se lembrarão que Bolsonaro é o presidente que:

- em maio do ano passado disse num café da manhã com deputados que "brevemente" apresentaria ao Congresso um projeto que renderia ao governo um dinheiro maior que o economizado com a Reforma da Previdência em dez anos (800 bilhões de reais). O projeto nunca apareceu.

- em janeiro, alardeou que aproveitaria a viagem aos Estados Unidos no mês seguinte para visitar uma empresa que lhe apresentaria uma tecnologia de "transmissão de energia elétrica sem meios físicos". "Se for real, de acordo com a distância, que maravilha! Vamos resolver o problema de energia elétrica de Roraima passando por cima da floresta", declarou. A visita à tal empresa nem sequer aconteceu — a maluquice foi detectada antes.

- em março, diante de uma plateia de 300 pessoas em Miami, afirmou que "brevemente" mostraria provas de que as eleições que ele próprio venceu em 2018 foram fraudadas. "Eu acredito que, pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito no primeiro turno, mas no meu entender teve fraude. E nós temos não apenas palavra, nós temos comprovado, brevemente eu quero mostrar". Cansou-se quem esperou de pé. Bolsonaro nunca mais tocou no assunto.

Mas a progressão dos delírios do presidente contém uma boa notícia. Ela aponta para o raiar de uma libertação coletiva.

Em breve, o Itamaraty não terá mais de sair correndo para apagar incêndios causados por suas falas. A Bolsa não mais cairá, o dólar não mais subirá. O vice-presidente Hamilton Mourão tampouco precisará dar entrevistas "explicando" o que disse o chefe (o vice terá de arrumar outro jeitinho de aparecer na TV).

Em breve, Jair Bolsonaro será um homem livre para dizer o que lhe der na telha, incluindo declarar guerra aos Estados Unidos, porque ninguém mais dará crédito ou importância às suas palavras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.