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Thaís Oyama

O Brasil sem a vacina da Pfizer e o "plano de imunização" que é uma piada

O general Pazuello, aclamado por sua expertise em logística -                                 ANDERSON RIEDEL/PR
O general Pazuello, aclamado por sua expertise em logística Imagem: ANDERSON RIEDEL/PR
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

03/12/2020 09h26

Depois de muita cobrança externa e delonga interna, o Ministério da Saúde divulgou seu "plano de imunização".

O "plano" foi pomposamente anunciado como sendo "dividido em quatro fases", mas sua elaboração não deve ter roubado muito o tempo do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, já que ele cabe numa frase: "profissionais de saúde, indígenas e idosos serão vacinados primeiro; depois virão as pessoas entre 60 e 74 anos, seguidas das que sofrem de comorbidades e de funcionários públicos como professores e trabalhadores das forças de segurança".

Acabou-se o plano.

Ao menos, o ministério teve o pudor de chamá-lo preliminar.

Nada sobre quanto tempo depois de aprovada uma vacina ela será distribuída no Brasil (o plano de imunização dos Estados Unidos garante que, a partir do momento em que o FDA aprovar um imunizante, os primeiros americanos o receberão em 48 horas);

Nada sobre onde serão vacinados os brasileiros (o Reino Unido transformou ginásios esportivos e outras instalações em 42 centros de vacinação e já sabe quantos britânicos cada centro irá imunizar por dia);

Nada sobre quem irá aplicar a vacina na população (a Argentina mobilizou suas Forças Armadas);

E nada sobre planos de compra de equipamentos básicos como seringas (desde julho, países europeus tratam da compra conjunta do equipamento para prevenirem-se da sua iminente escassez).

Pior: com a resignação dos vencidos, Pazuello sugeriu que o Brasil não compraria a primeira vacina aprovada no mundo ocidental, a da Pfizer, porque ela tem de ser acondicionada a -70º C.

O general louvado por sua expertise em logística deixou de comentar o motivo pelo qual a exigência de baixas temperaturas não foi um problema incontornável para o Peru, Chile, Costa Rica, Equador, México e Panamá — para ficar só nos países da América Latina que fecharam acordos de compra com a Pfizer —e em breve começarão a imunizar as suas populações.

Por quanto tempo os brasileiros ficarão chupando o dedo ainda é uma das muitas respostas que o general Pazuello deve ao país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.