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Thaís Oyama

O PT oferece a cabeça de Gleisi de olho na de Lula, mas pode ser tarde

A presidente do PT, Gleisi Hoffman: apenas uma executora de ordens - Pedro Ladeira - 22.out.2018/Folhapress
A presidente do PT, Gleisi Hoffman: apenas uma executora de ordens Imagem: Pedro Ladeira - 22.out.2018/Folhapress
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

02/12/2020 09h15

Lula nunca tinha ouvido nada assim.

Menos de 48 horas depois de as urnas revelarem a fragorosa derrota do PT para siglas de direita, centro-direita, centro-esquerda e esquerda também, expoentes do partido vieram a público dizer em alto e bom som o que há tempos já sussurravam nas coxias.

"O Lula já deu muito para o partido. É hora de abrir espaço", disse Alberto Cantalice, do diretório nacional do PT.

O senador Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, foi mais claro: "A gente não pode ficar refém. Eu sou amigo irmão do Lula, mas vou ficar refém dele a vida inteira? Não faz sentido".

Há 40 anos, o PT não dá um passo sem a bênção de seu caudilho. Nenhuma aliança vinga sem a aprovação do ex-presidente. Toda estratégia emana da sua voz.

Nas eleições municipais, partiu de Lula o comando para a sigla lançar o maior número de candidatos no país, em vez de apoiar outras legendas em cidades estratégicas onde as chances da esquerda eram boas. A presidente do PT, para quem Lula é destituído da característica da falibilidade, apenas executou o plano — que nada tinha de novo.

Entre vencer o adversário do campo oponente —mas no papel de coadjuvante— e correr o risco de perder — mas no figurino de líder da oposição—, o PT sempre preferiu o segundo caminho.

Age assim à imagem e semelhança de seu presidente eterno.

Entre abrir espaço para o crescimento de novos nomes, e fortalecer o partido e a esquerda, e manter o seu como única opção, mesmo com prejuízo do partido e da esquerda, Lula sempre escolheu ficar ao lado dele mesmo.

Foi assim quando "queimou" Eduardo Suplicy em 2002, depois que o então senador ousou disputar prévias internas com ele. Foi assim quando aplicou mais de uma rasteira em Ciro Gomes, o ex-aliado do PDT a quem prometera dar as mãos. Foi assim com Jaques Wagner, por ele preterido para as eleições de 2018, e foi assim com Fernando Haddad, cuja oficialização da candidatura naquele ano Lula só liberou a 20 dias das eleições — muito tempo depois de até as paredes da cela que o abrigavam na Polícia Federal estarem conformadas com a impossibilidade legal de ele disputar o pleito.

Agora, diante da pior surra eleitoral da sua história, o PT planeja oferecer a cabeça de sua presidente num ritual de sacrifício destinado a preservar, ao menos simbolicamente, a do artífice da derrota.

Correntes minoritárias do partido já se articulam para abreviar o mandato de Gleisi Hoffman, que vai até 2023. Lideram o movimento a Articulação de Esquerda e a Novos Rumos. A corrente majoritária no PT é a Construindo um Novo Brasil.

A cabeça de Gleisi não vale uma missa.

Mas talvez seja tarde demais para cortar a de Lula.

Há 40 anos, o PT é refém do ex-presidente.

Agora, como disse Wagner, quer se libertar dessa prisão.

A questão é o que sobrará do partido se conseguir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.