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Thaís Oyama

O enfraquecimento do PT enfraquece o bolsonarismo

O ex-presidente Lula: símbolo de um partido que sai das urnas sem dentes -                                 SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO CONTEÚDO
O ex-presidente Lula: símbolo de um partido que sai das urnas sem dentes Imagem: SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO CONTEÚDO
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

30/11/2020 09h19

O PT tomou a maior surra eleitoral da sua história.

O partido que ganhou quatro eleições presidenciais e governou o país por 14 anos saiu das urnas aos farrapos: sem uma única capital, com 71 prefeituras a menos e, pela primeira vez, fora do segundo turno em São Paulo, onde teve menos de 10% dos votos.

Do ponto de vista da sigla, é uma situação calamitosa.

Do ponto de vista do bolsonarismo, é uma notícia alarmante.

Dado que o fenômeno Bolsonaro sempre teve no PT o seu contraponto, ver o arquiinimigo praticamente reduzido a um leão sem dentes enfraquece a polarização e deixa o bolsonarismo sem a sua principal mola propulsora.

É certo que muitas das causas petistas constam do cardápio de outras siglas da esquerda, como o PSB, o PDT e o ascendente PSOL.

Era o PT, porém, que encapsulava a aversão da direita a elas.

Por isso, até agora a estrela vermelha foi para o bolsonarismo o melhor e mais vistoso alvo. Difícil substituir inimigo tão bom.

"2018 não vai se repetir"

Mas estrategistas do Palácio do Planalto já planejam os próximos rounds.

Na visão de um deles, a ascensão fulminante de Bolsonaro em 2018 foi uma "revolução". Ocorre que ninguém vive em estado de revolução. Movimentos agudos tendem à acomodação —e é isso que mostra a pífia performance do presidente como cabo eleitoral nessas eleições.

Se o PT se esborrachou, o bolsonarismo murchou.

"O que aconteceu em 2018 não vai mais se repetir", diz o estrategista. Mas se a explosão do bolsonarismo não se repetirá em intensidade, não quer dizer que não se aproveite do fenômeno a sua dinâmica.

Em outras palavras: se a esquerda não produzir um novo Satã, o bolsonarismo cuidará de eleger um nome de centro ou centro-direita para ele mesmo "satanizar".

"Rabo bem botado é melhor que rabo nascido", resume o estrategista palaciano. Da perspectiva bolsonarista, nomes como João Doria, Luciano Huck e Sergio Moro estarão sempre à esquerda.

O PT sai mutilado das urnas. E o bolsonarismo, a partir de hoje, procura o próximo dono do rabo.