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Thaís Oyama

Caso encerrado na Suécia: a tática "light" contra o coronavírus fracassou

Rei Carl XVI Gustaf da Suécia - Bengt Nyman/Reprodução
Rei Carl XVI Gustaf da Suécia Imagem: Bengt Nyman/Reprodução
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

17/12/2020 11h55

O rei da Suécia, Carl XVI Gustaf, pôs ontem um ponto final num debate que começou junto com a pandemia.

Estaria correta a Suécia ao ir na contramão do mundo ao não adotar regras de confinamento, não determinar o fechamento da economia em momento algum e nem ao menos recomendar à população o uso de máscaras como formas de combater a disseminação do coronavírus?

"Acho que fracassamos", decretou ontem Carl XVI Gustaf em cadeia nacional de televisão. "Temos um grande número de mortes e isso é terrível", lamentou o rei.

Ao contrário da maior parte dos países do mundo, desde o início da pandemia o governo sueco limitou-se a recomendar aos cidadãos que lavassem as mãos com frequência e guardassem distância em lojas, bares, escolas e restaurantes, que permaneceram abertos durante a maior parte do ano. O uso de máscaras foi recomendado apenas dentro de hospitais.

A estratégia sueca se baseou em duas premissas: 1) a de que os cidadãos seriam suficientemente responsáveis para cuidar de si próprios sem que o estado precisasse obrigá-las a fazer ou deixar de fazer qualquer coisa; e 2) a de que o contato inevitável de parte da população com o vírus cuidaria de baixar gradativamente os casos de internações e mortes, na medida em que cresceria também o número de pessoas naturalmente protegidas da infecção - a chamada teoria da "imunidade de rebanho".

Por causa da imunidade de rebanho, diziam defensores da estratégia como o epidemiologista Anders Tegnell, o número de casos de Covid-19 no país diminuiria a partir de setembro em relação ao dos vizinhos Finlândia e Noruega, que aderiram ao confinamento.

Aconteceu o exato oposto: a Suécia registrou mais de 1700 mortes por Covid no mês passado, enquanto que a Finlândia e a Noruega, com metade da população da Suécia, tiveram cerca de 100 mortes pela doença cada uma.

Cidades como a capital Estocolmo já sofrem com déficit de leitos na UTI, mesmo com a deflagração de um plano emergencial do governo para ampliação do atendimento — Finlândia e Noruega ofereceram ajuda ao vizinho.

No Brasil, críticos da política de isolamento social sempre usaram o exemplo sueco para dizer que ele arruinaria a economia — muito embora as autoridades suecas nunca tenham se valido desse argumento para explicar a estratégia escolhida (a principal justificativa sempre foi a preocupação com a saúde dos suecos, incluindo os riscos de aumento de depressão e suicídio que o confinamento poderia causar).

Tudo o que se pode dizer até agora quanto à economia é:

O PIB do Brasil no segundo trimestre de 2020 caiu 11,4% em relação ao mesmo período do ano passado.

O PIB da Suécia no segundo quadrimestre de 2020 (ele é medido assim) caiu 8,6% em relação ao mesmo período do ano passado.

O tombo, embora menor que o brasileiro, foi considerado histórico no país nórdico, que já prevê um desemprego de 10% no início do ano.

Mas o que o rei lamentou em cadeia nacional de TV foram as mortes e os leitos transbordantes das UTIs - esse o fracasso da Suécia.