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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

General Braga Netto deveria tomar aula de esperteza com o Centrão

O general Braga Netto: mais lenha na fogueira dele no dia 17 - Agência Brasil
O general Braga Netto: mais lenha na fogueira dele no dia 17 Imagem: Agência Brasil
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

23/07/2021 12h17

O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, tem verdes 17 meses na política - ele deixou a chefia do Estado-Maior do Exército para assumir a Casa Civil do governo Bolsonaro em fevereiro de 2020. Se lhe restava alguma inocência dos anos vividos na caserna, o general a perdeu ontem.

Braga Netto, conforme revelou reportagem do Estadão, resolveu rugir alto no último dia 8 e mandou mensagem ao presidente da Câmara, Arthur Lira, dizendo que se o Congresso não aprovasse a criação do voto impresso, não haveria eleição em 2022. A mensagem, segundo o jornal, chegou a Lira por meio de um "interlocutor". O Correio Braziliense confirma hoje o que já diziam dez entre dez políticos de Brasília: esse interlocutor é o presidente do PP, Ciro Nogueira, que até agora não desmentiu a informação.

Nogueira, assim como Lira, em vez de acoelhar-se diante da bravata do general, viu no episódio uma boa oportunidade de ganho - no caso, de imagem.

Assim, os parlamentares não apenas tornaram pública a ameaça feita pelo ministro da Defesa, como trataram de, no episódio, colocar em boa luz o presidente da Câmara e líder do Centrão.

Arthur Lira de fato procurou o presidente Jair Bolsonaro no dia 13 para dizer que não compactuaria com o golpismo —anunciado não apenas pelo general mas pelo próprio presidente no mesmo dia 8, no cercadinho do Palácio da Alvorada.

A informação de que Lira recitou suas convicções democráticas a Bolsonaro, evidentemente, também consta da reportagem do Estadão. "Convidaram o Centrão para um golpe e ele não aceitou", diz um estrategista do bloco resumindo a narrativa almejada na jogada da dupla Lira-Nogueira.

Reportagem publicada, Lira ensaiou retirar suas digitais do episódio. Na manhã de ontem, disse a pelo menos dois interlocutores que a apuração era falsa e que ele a negaria a publicamente. Momentos depois, porém, o presidente da Câmara recebeu ele próprio um recado de que seu desmentido poderia ser cabalmente desmentido — por exemplo, pela divulgação de um registro de voz.

Surgiu daí a nota malandra em que Lira, em alegada resposta ao jornal, diz apenas que o "O Brasil quer vacina, quer trabalho e vai julgar seus representantes em outubro do ano que vem, através do voto popular, secreto e soberano". Depois disso, Lira não mais se pronunciou e Ciro Nogueira, em férias no México, reservou a boca apenas para a tequila.

Braga Netto, em compensação, continua ardendo nas chamas que ele mesmo acendeu. No dia 17, terá de explicar-se também sobre o episódio em audiência na Câmara dos Deputados.

Será uma sessão espinhosa para o general.

Caso ele queira uma aula de esperteza, Ciro Nogueira estará à sua disposição, agora na qualidade de colega de Palácio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL