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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ruas vazias levam impeachment de volta ao banho-maria 

Arthur Lira, presidente da Câmara e líder do Centrão, bloco para o qual a pergunta que importa é se vai ter RP-9 ou não - Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Arthur Lira, presidente da Câmara e líder do Centrão, bloco para o qual a pergunta que importa é se vai ter RP-9 ou não Imagem: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

13/09/2021 12h55

O esvaziamento das manifestações contra Jair Bolsonaro, epitomizado pelos 6 mil gatos pingados que foram ontem à avenida Paulista, deixaram claro que as forças políticas de oposição ao governo ou não têm força para puxar o impeachment do ex-capitão, como demonstraram MBL e Vem pra Rua, ou não têm disposição, caso do ausente PT de Lula.

A carta do impeachment — que o próprio Bolsonaro colocou na mesa no dia 7 de setembro e tentou enfiar outra vez no bolso no dia seguinte com a Declaração à Nação— só entra de fato no jogo quando as ruas rugem, como mostraram as quedas de Fernando Collor e Dilma Rousseff.

E o contrário, a ausência de manifestações vigorosas, como lembrou reportagem da Folha de ontem, é capaz de manter de pé mesmo presidentes com alta reprovação nas pesquisas, como Michel Temer, que quando foi ameaçado de afastamento tinha 71% de avaliações negativas (Bolsonaro tem 51%, segundo o Datafolha).

Mas o esvaziamento das ruas não é a única condição a favorecer a permanência da cabeça de Bolsonaro sobre os ombros.

Como lembra um artífice do Centrão, nos processos em que caíram Collor e Dilma, as alternativas de substituição ao presidente recaíam sobre dois nomes "da política", os então vice-presidentes Itamar Franco e Michel Temer.

Entenda-se por "da política", entre outras coisas, gente que compreende a dinâmica do Congresso e sabe o que faz oscilar o humor e as convicções da maior parte dos parlamentares. Na visão de lideranças do Centrão, esse não é o caso do vice-presidente Hamilton Mourão.

O general, filiado a um partido nanico, sem interlocução com o Congresso e — para muitos, pior do mundos— apoiador inconfesso do ex-ministro Sergio Moro e da Lava Jato, é tudo o que o bloco de partidos aliados ao governo não gostaria de ver no poder.

Como diz uma liderança do Centrão, a única pergunta que importa a integrantes do bloco é: "O substituto de Bolsonaro vai continuar pagando as emendas RP-9?".

A sigla RP-9 denomina as bilionárias emendas do relator ao Orçamento, cuja distribuição está hoje concentrada nas mãos do presidente da Câmara, deputado Arthur Lira — líder do Centrão e dono do "botão amarelo" do impeachment.

Não havendo ruas nem disposição da base de apoio do governo para matar a sua galinha dos ovos de ouro, Bolsonaro — ao menos enquanto lhe permitirem os rumos da economia— deve se manter onde está, segurando-se nos 24% de apoio dos bolsonaristas incorrigíveis.

Que, mesmo traídos, humilhados e ridicularizados pelo ex-capitão, já demonstraram precisar apenas de uma mentira mal contada para continuar seguindo um líder que não sabe para onde está indo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL