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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Arthur Lira dá a senha a Bolsonaro: a partir de agora, cada um cuida de si

Arthur Lira, líder do Centrão: a partir de agora, só selfies - Michel Jesus/Câmara dos Deputados
Arthur Lira, líder do Centrão: a partir de agora, só selfies Imagem: Michel Jesus/Câmara dos Deputados
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

22/11/2021 12h28

Em abril de 2020, o líder do então famigerado Centrão pediu ao presidente Jair Bolsonaro que gravasse um vídeo com ele. Sua mulher e seu filho, explicou, eram "fãs" do presidente.

O vídeo viralizou e marcou a primeira aproximação de Bolsonaro com o bloco de partidos mais fisiológicos da Câmara.

Três meses depois, Lira levou dez partidos para dentro do governo (toma lá) e o Centrão recebeu como agradecimento duas dezenas de cargos cobiçados (dá cá). Em fevereiro deste ano, Lira foi eleito presidente da Câmara com o apoio do Planalto, e, em julho, seu partido, o PP, ganhou o mais poderoso ministério do governo, a Casa Civil.

Lira era o líder do Centrão e o Centrão e Bolsonaro eram só amor.

Ontem, Arthur Lira aproveitou uma entrevista à Folha para dar o pontapé inicial à sua campanha para a reeleição à presidência da Câmara e também para passar ao seu eleitorado alguns recados.

Entre eles, o de que nem é tão bolsonarista assim.

"Sempre transitei muito na oposição", recordou. E ele também sempre se deu "muito bem" com parlamentares desse campo, inclusive os do PT, nominalmente citado.

Perguntado se a continuidade da sua aliança com o governo poderia prejudicar seu projeto de reeleger-se, foi direto e reto: "A vida do presidente Bolsonaro é uma. A minha vida é outra".

Lira compôs a base de apoio dos três últimos governos —além do de Bolsonaro, também o da petista Dilma Rousseff e do emedebista Michel Temer.

Como nada é melhor do que estar no governo numa eleição, principalmente quando se é detentor da chave de um cofre forrado de emendas secretas, nada indica que Lira deixará o barco de Bolsonaro enquanto ele for presidente.

O que não quer dizer que as prioridades dos dois devam coincidir.

Como pessoa física, Lira pretende cuidar da sua reeleição.

Como integrante do PP, ficará satisfeito se seu partido mantiver uma proximidade apenas regulamentar com Bolsonaro.

Perguntado se o vice na chapa do ex-capitão para 2022 viria mesmo do PP, Lira respondeu que a sigla talvez "possa escolher o vice de outro partido que possa se coligar".

Foi uma gentil maneira de dizer que ele ficaria contente se o presidente resolvesse "prestigiar" outra legenda com a honra de aparecer ao lado do cabeça de chapa com o mais baixo índice de intenção de votos entre todos os seus antecessores na mesma altura do mandato.

A vida do presidente é uma, a de Lira, é outra, e chega de vídeos gravados juntinhos.

A partir de agora, vale a lei de murici: cada um cuida de si. E se é para posar para foto, que seja uma selfie.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL