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Thiago Herdy

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Randolfe quer convocar à CPI da Covid importador de máscaras KN95

Randolfe Rodrigues quer investigar compra de máscaras por valores mais altos alto governo brasileiro - Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo
Randolfe Rodrigues quer investigar compra de máscaras por valores mais altos alto governo brasileiro Imagem: Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo
Thiago Herdy

Colunista do UOL em São Paulo, foi repórter de O Globo, Época, Estado de Minas e Diário da Tarde. Integrou a equipe do FinCEN Files, investigação finalista do Pulitzer 2021. Vencedor dos prêmios Esso 2008 e 2010 e de menções especiais no Prêmio IPYS/Transparência Internacional, 2009 e 2011. Foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) no biênio 2016/2017. É formado em jornalismo pela PUC Minas.

Colunista do UOL

20/07/2021 17h58

O vice-presidente da CPI da Covid, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) disse hoje que irá protocolar um requerimento para convocação do importador de relógios de luxo Freddy Rabbat à comissão, para esclarecer as suspeitas em torno do contrato de aquisição de máscaras do tipo KN95, obtidas pelo governo federal para o combate à pandemia.

As máscaras foram adquiridas com a intermediação da empresa de Rabbat e custaram 29% mais ao governo brasileiro do que a uma empresa privada que as adquiriu na mesma época, do mesmo importador e do mesmo fornecedor, de acordo com reportagem do UOL. Além de convocar Rabbat para depor, Randolfe vai propor a quebra de sigilo fiscal de suas empresas.

"A história revelada é mais um elemento a mostrar que enquanto as pessoas morriam de covid-19, o governo federal superfaturava contratos. Demonstra também que o ataque a estados e municípios era, na verdade, uma forma de obstacularizar investigações sobre o governo federal", disse Randolfe.

O senador lembrou que a compra ocorreu na gestão do então diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias, afastado depois de ser considerado suspeito de pedir propina em contratos de vacina.

Esquema Entenda o negócio - Arte UOL - Arte UOL
Imagem: Arte UOL

"É mais um episódio da gestão deste cidadão, que permaneceu esse tempo todo à frente do ministério. Ele não contou nem 5% do que deveria contar", avalia.

A compra de 40 milhões de máscaras ocorreu em abril do ano passado, ao custo de US$ 66 milhões. Se nela tivesse sido aplicado o valor mais baixo, o pagamento seria de US$ 51,2 milhões, uma diferença de US$ 14,8 milhões.

A compra faz parte do maior contrato de insumos hospitalares assinado no Brasil no âmbito do combate à pandemia, que incluiu também máscaras mais simples. De acordo com contrato assinado com a 356 Distribuidora, Importadora e Exportadora, representante no Brasil da empresa de Hong Kong Global Base Development HK Limited, o governo brasileiro pagou US$ 1,65 por máscara KN95, ou R$ 8,65, pela cotação no momento da compra.

Também em abril, a mesma 356 Distribuidora importou 200 mil máscaras para um grupo privado, também no modelo KN95, o mesmo contratado pelo governo brasileiro. No entanto, elas custaram US$ 1,28 cada, ou R$ 6,71, de acordo com documentos obtidos pela reportagem.

Caso o mesmo preço tivesse sido ofertado pela 356 Distribuidora ao governo brasileiro, o país teria economizado US$ 0,37 (R$ 1,93) por máscara, ou US$ 14,8 milhões (R$ 77,5 milhões na cotação da época), se considerado o valor total da transação.

A reportagem perguntou ao dono da 356 Distribuidora, Freddy Rabbat, por que não ofertou o mesmo preço ao governo brasileiro, mas ele preferiu não comentar. O Ministério da Saúde também não se pronunciou.

Em nota, os advogados de Rabbat, Eduardo Diamantino e Fábio Tofic, defenderam o preço aplicado ao Ministério da Saúde, que no entendimento deles "está abaixo da média de mercado na época da aquisição, momento em que havia um crescimento sem precedentes da demanda mundial pelo produto e o Brasil corria o risco de não conseguir insumos para enfrentar a pandemia de covid-19"..

Eles preferiram não comentar a diferença entre o preço oferecido ao governo brasileiro e o preço obtido para venda ao mercado privado.

Importador de luxo

Freddy Rabbat representa no Brasil a marca de relógios suíça Tag Heuer e preside a Associação Brasileira de Empresas de Luxo. Desde 2019 ele atua como conselheiro fiscal da Eucatex, empresa da família do ex-deputado federal Paulo Maluf (PP). De acordo com a assessoria da empresa, ele é parente de quarto grau dos filhos do político, Otavio e Flavio.