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Antes estrela de reality show, Trump agora leva choque de realidade na TV

                                 O presidente dos EUA, Donald Trump                              -                                 BRENDAN SMIALOWSKI/AFP
O presidente dos EUA, Donald Trump Imagem: BRENDAN SMIALOWSKI/AFP
Vicente Toledo

O jornalista Vicente Toledo começou sua carreira em 2000 no UOL, onde foi redator, repórter, vídeo reporter, apresentador e editor assistente. Participou das coberturas especiais da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, das Eleições Presidenciais, em 2006, e dos Jogos Pan-Americanos de 2003, em Santo Domingo, e 2007, no Rio de Janeiro, dentre outros grandes eventos. Apresentou programas da TV UOL como a "Tabelinha", com Juca Kfouri, e o "Pit Stop", com Fábio Seixas. Após 12 anos como editor na Microsoft, incluindo passagens por Canadá e Estados Unidos, retorna ao UOL para contribuir com a cobertura das eleições presidenciais norte-americanas.

Colunista do UOL

16/09/2020 10h30

Famoso por seu sucesso em frente às câmeras no reality show "The Apprentice" ("O Aprendiz", na versão brasileira), o presidente norte-americano Donald Trump levou um choque de realidade na noite desta terça-feira ao participar de um programa de entrevistas na emissora ABC.

Acostumado a responder à sua maneira perguntas de jornalistas que cobrem o dia a dia da Casa Branca em entrevistas coletivas ou em aparições exclusivas na amigável FOX News, Trump encarou duros questionamentos de eleitores indecisos na Pensilvânia, um dos mais importantes nas eleições presidenciais de novembro.

E o resultado não foi dos mais agradáveis para o atual presidente, que venceu a eleição na Pensilvânia em 2016 por pouco mais de 44 mil votos, mas vem aparecendo consistentemente atrás do ex-vice presidente democrata Joe Biden nas pesquisas de intenção de voto no estado.

Em um dos momentos mais marcantes do evento, uma das eleitoras pediu, com educação e firmeza, que o presidente parasse de interrompê-la. "Deixe-me terminar minha pergunta, senhor", afirmou Ellesia Blaque. Portadora de uma doença inflamatória crônica, ela questionou Trump sobre seus planos de acabar com proteções para portadores de doenças preexistentes (problemas de saúde que pacientes adquirem antes da contratação de um plano de saúde), estabelecidas no governo de Barack Obama.

A pergunta destacou uma das maiores prioridades dos eleitores norte-americanos: o debate entre adoção de um sistema público universal de saúde ou a manutenção da estrutura privada atual, uma das mais caras do mundo. "É um desastre total. Você vai ter um novo plano de saúde, e doenças preexistentes sempre estarão nos meus planos", disse Trump, repetindo uma promessa feita desde 2016, sem mencionar que vem tentando derrubar a lei aprovada no governo anterior, conhecida como "Obamacare".

O mediador do programa, George Stephanopoulos, não deixou barato e pressionou o presidente sobre suas tentativas de derrubar o programa de saúde de Obama — e com ele a proteção a doenças preexistentes — mesmo sem ter nunca revelado seu plano para substitui-lo. Trump rebateu que seu plano será melhor. "Mas você nunca apresentou nada", esclareceu Stephanopoulos.

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A culpa é da China

Ainda no campo da saúde, Trump também escorregou quando questionado sobre a resposta de seu governo ao coronavírus. O eleitor Paul Tubiana é diabético, conservador e votou em Trump em 2016. Mesmo assim, não aliviou: "Por que o senhor jogou pessoas vulneráveis como eu para debaixo do ônibus?".

Trump culpou a China, listou uma série de estatísticas duvidosas — "Só temos 20% dos casos do mundo porque fazemos mais testes. Se não testássemos tanto, não teríamos tantos casos"— e classificou o desempenho de seu governo como "fantástico". Os Estados Unidos têm mais de 6.5 milhões de casos confirmados e mais de 195 mil mortes causadas pelo coronavírus.

Questionado sobre sua resistência em recomendar o uso de máscaras, o atual presidente transferiu a responsabilidade para Joe Biden, seu concorrente na eleição de novembro, que atualmente não ocupa nenhum cargo na administração pública. "Uma boa pergunta é por que Joe Biden não fez? Eles (Democratas) disseram que iam fazer uma ordem nacional obrigando uso de máscaras e nunca fizeram", afirmou Trump.

"Você poderia ter feito mais para conter o vírus?", perguntou Stephanopoulos. "Eu acho que não", respondeu o presidente. "Nós vamos ficar bem. E o vírus vai embora, mesmo sem a vacina", contrariando a opinião dos próprios especialistas do governo norte-americano.

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E quando não faltou com a verdade ou transferiu a culpa para outros, Trump simplesmente se esquivou das perguntas. Como fez com o pastor Carl Day, que o pressionou sobre o slogan "Make America Great Again" ("Fazer a América Ótima de Novo"). "Quando a América foi ótima para os negros morando nos guetos?", perguntou Day.

"Posso dizer o seguinte: temos tremendo apoio da comunidade negra", disse o presidente, alegando que ela vivia "seu melhor momento na história deste país" antes de a pandemia atingir os Estados Unidos. É como se a onda de protestos contra a violência policial que atinge desproporcionalmente a população negra não tenha se espalhado pelo país após as mortes de George Floyd, Breonna Taylor, Rayshard Brooks e tantos outros apenas em 2020.

Fora de sua zona de conforto e da realidade fabricada dos tempos de estrela de TV, Trump teve desempenho sofrível. Talvez não o suficiente para que perca votos entre seus fiéis apoiadores, mas o bastante para escancarar a distância entre a Casa Branca e a vida real.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.