Vídeo de mulher com rosto de Lula e Bolsonaro de delegado é uma sátira

Um vídeo que mostra uma mulher com o rosto parecido com o do presidente Lula (PT) e um delegado da Polícia Civil que lembra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é uma sátira. Trata-se do trecho de uma reportagem publicada originalmente pelo SBT-MS que foi digitalmente adulterado. Não há nas publicações indicação sobre a edição do conteúdo, o que despertou dúvidas entre usuários nas redes sociais sobre a veracidade dele.

Conteúdo investigado: Publicações em tom preconceituoso nas redes sociais alegam que uma pessoa trans com rosto idêntico ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi presa por um delegado parecido com o ex-presidente Jair Bolsonaro. A postagem é acompanhada por um vídeo com o trecho de uma reportagem que tem os dois personagens com faces aparentemente adulteradas, dentro de uma delegacia da Polícia Civil.

Onde foi publicado: X (antigo Twitter), Telegram e Facebook.

Conclusão do Comprova: Com o uso de inteligência artificial, vídeo viral faz sátira ao inserir o rosto do presidente Lula (PT) sobre o de uma mulher aparentemente algemada em uma delegacia da Polícia Civil e também ao colocar a face do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre a de um delegado. A gravação sobre a qual foram feitas as adulterações nos rostos é trecho de uma reportagem do SBT-MS.

O conteúdo foi compartilhado sem qualquer aviso de que se tratava de um vídeo editado, em uma página de "humor" e "notícias" cujos posts já foram verificados outras vezes pelo Comprova. A falta de clareza sobre a edição do vídeo despertou dúvidas entre usuários nas redes sociais sobre a veracidade dele e a intencionalidade da publicação.

A reportagem original tratava do assassinato de Renata de Freitas Garcia, uma mulher de 25 anos, em Campo Grande (MS). A matéria sem adulterações foi exibida pelo SBT-MS em 29 de outubro de 2018, dia em que o corpo da vítima foi encontrado em um terreno baldio na capital sul-mato-grossense.

Renata é a mulher que aparece no vídeo adulterado com o rosto parecido ao de Lula. A reportagem do SBT-MS sobre o assassinato utilizou imagens de arquivo da vítima, uma vez que ela já havia aparecido anteriormente em matérias da emissora por passagens policiais.

Em 2017, Renata chegou a ficar conhecida como "bandida sorridente", conforme registrou a imprensa local, por uma série de entrevistas que concedeu em uma delegacia da Polícia Civil após ser presa por suspeita de tentativa de homicídio. As imagens dessa ocasião foram recuperadas no ano seguinte pela reportagem do SBT-MS que tratava da morte dela e que acabou adulterada posteriormente.

Sátiras são memes, paródias e imitações publicadas com intuito de fazer humor. O Comprova verifica conteúdos satíricos quando percebe que há pessoas tomando-os por verdadeiros.

Continua após a publicidade

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. No X, a publicação com o vídeo adulterado teve 434 mil visualizações e mais de 4 mil curtidas até 30 de novembro. Na mesma data, o post no Telegram tinha 12,3 mil visualizações.

Como verificamos: O Comprova fez, inicialmente, buscas reversas das imagens da mulher e do delegado que aparecem no vídeo sob verificação no Google Imagens e no TinEye.

Para o caso dela, não houve retorno significativo. Já em resposta ao print da autoridade policial, o Google sugere uma foto do delegado da Polícia Civil sul-mato-grossense Edemilson José Holler em um cenário parecido ao do vídeo adulterado. Ela está publicada em um portal de notícias de Campo Grande.

| Print utilizado na busca reversa no Google Imagens (Foto: Reprodução)

O Comprova fez então novas buscas no Google Imagens, mas pelo nome do delegado. Ao procurar pelos termos "Edemilson Holler", encontrou uma nova foto da autoridade policial, em que aparece com um paletó, camisa e gravata parecidos ao do suposto delegado que tem o rosto semelhante ao de Bolsonaro.

Continua após a publicidade

Essa segunda imagem também foi publicada pelo portal Campo Grande News, em reportagem que trata da morte a facadas de Renata de Freitas Garcia. Ao buscar por outras publicações sobre o assassinato, o Comprova encontrou um registro de outro veículo local que traz uma imagem da vítima: uma mulher com roupa e em um cenário parecido ao da suposta pessoa trans que teria o rosto idêntico ao de Lula.

A foto dela mostra, no entanto, uma logomarca do programa Mauricio Picarelli e um microfone com espuma laranja, que não aparecem no vídeo com rostos aparentemente adulterados. O registro sob verificação tem uma marca d'água do SBT-MS, emissora com a qual o Comprova fez então contato.

Em resposta, o SBT-MS confirmou que o vídeo com a suposta pessoa trans parecida com Lula se trata, na verdade, do trecho de uma reportagem originalmente exibida pela emissora em 29 de outubro de 2018 para noticiar o assassinato de Renata de Freitas Garcia. A matéria traz também a entrevista com o delegado da Polícia Civil Edemilson José Holler. Os rostos verdadeiros não lembram Lula nem Bolsonaro.

"A nossa equipe já havia feito uma sonora com ela [Renata] em uma das ocasiões em que foi presa, justamente essa imagem que foi adulterada e chegou até vocês", explicou o jornalista Odil Santana, que atua como arquivista do SBT-MS, em conversa com o Comprova.

Por fim, o Comprova ouviu o professor de engenharia da informação da Universidade Federal do ABC Mario Gazziro para entender como a alteração pode ter sido feita.

Vídeo adulterado já havia viralizado em 2021

O trecho da reportagem do SBT-MS com rostos adulterados já havia viralizado no Facebook no final de 2021. Em novembro daquele ano, o deputado estadual Ricardo Arruda (PL-PR) publicou o vídeo em sua página na rede social, em que teve 25 mil visualizações e 1,7 mil reações.

Continua após a publicidade

Naquele mesmo mês, o deputado estadual Anderson Moraes (PL-RJ) havia publicado em sua página no Facebook um vídeo de uma outra pessoa trans que supostamente tinha o rosto semelhante ao de Lula.

O vídeo compartilhado por Moraes é do trecho de uma aparente reportagem sobre uma pessoa trans com nome de registro Francis Lopes dos Santos, que teria agredido a mãe na ocasião em que foi presa. Ela concede entrevista em uma unidade da Polícia Civil do Paraná. Ao buscar pelo mesmo nome no Google, é possível encontrar uma outra reportagem da imprensa sobre o caso, que ocorreu em 15 de outubro de 2014, em Apucarana (PR), mas com imagens que mostram o rosto verdadeiro da suspeita envolvida.

O vídeo adulterado tem uma marca d'água com os dizeres "made with reface app", o que indica que ele foi "feito com o aplicativo Reface", uma ferramenta de inteligência artificial que permite ao usuário substituir o rosto de pessoas em fotos e vídeos, além de criar imagens e animações.

| Vídeo tem marca d'água de aplicativo Reface no canto superior esquerdo (Foto: Reprodução)

Há ainda na mesma publicação uma outra marca d'água, que indica que o vídeo teria partido do perfil "REFACE" do Kwai. No vídeo compartilhado por Arruda, que adultera o rosto de Renata de Freitas Garcia, há uma marca d'água em referência a uma conta no TikTok de nome parecido (refaceoficial). Não é possível confirmar, no entanto, que este vídeo também tenha sido feito com uso do aplicativo, uma vez que ele não conta com a marca d'água que remete à inteligência artificial.

Continua após a publicidade

| Conta "@refaceoficial" não está mais no ar no TikTok (Foto: Reprodução)

Publicação utiliza técnica de deepfake

O professor de engenharia da informação da Universidade Federal do ABC Mario Gazziro explica que o vídeo foi alterado a partir de uma técnica de geração de imagens chamada deepfake. Nesses casos, é possível perceber a mudança observando as diferenças entre as proporções do corpo e do rosto, ou entre expressões faciais e movimentos ou posturas corporais.

No vídeo investigado, essas incongruências ficam claras pela falta de sincronia entre a fala e o movimento da boca. As expressões faciais também soam pouco naturais.

Gazziro explica que o recurso de substituição de rostos é mais usado por se tratar de uma ferramenta relativamente acessível. Atualmente, há diversos softwares disponíveis para a criação de deepfakes, caso do aplicativo Reface.

Continua após a publicidade

"Gerar o chamado deepfake do corpo inteiro é muito mais trabalhoso para os falsificadores sendo ainda uma tecnologia pouco acessível, pois necessita da geração das cenas e corpos em 3d geradas com qualidade fotorrealista. Dessa forma, os falsificadores utilizam o recurso mais simples, que é apenas a substituição de rostos em vídeos pré-existentes", ressalta.

O que diz o responsável pela publicação: O Comprova tentou contato por e-mail com o Movimento Sem Picanha, mas não obteve retorno até esta publicação.

O que podemos aprender com esta verificação: Técnicas de edição de deepfake, que, neste segundo caso, se utilizam de recursos de inteligência artificial para adulterar rostos e vozes de pessoas, têm sido usadas cada vez com maior frequência por produtores de desinformação. Também é comum que eles explorem vídeos antigos e em outros contextos para espalhar conteúdos falsos e enganosos.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova mostrou, no ano passado, ser falso um áudio atribuído ao então presidenciável Ciro Gomes sobre tomada de poder pelas Forças Armadas caso Lula fosse eleito. Na mesma época, circulou um áudio também de William Bonner chamando Lula e Alckmin de bandidos.

Este conteúdo foi investigado por NSC Comunicação e Metrópoles. A investigação foi verificada por O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, CBN Cuiabá e A Gazeta. A checagem foi publicada no site do Projeto Comprova em 1 de dezembro de 2023.

Comprova

O Comprova é um projeto integrado por 40 veículos de imprensa brasileiros que descobre, investiga e explica informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Envie sua sugestão de verificação pelo WhatsApp no número 11 97045 4984.

Veja também

Deixe seu comentário

Só para assinantes